
Artur Semedo - artur.semedo@publiracing.pt
há 7 dias



Artur Semedo - artur.semedo@publiracing.pt
6 de abr.










Muito antes de o Urus conquistar o mercado global dos SUV de altas prestações, a Lamborghini já tinha criado um veículo revolucionário. O LM002, apresentado em 1986, combinou um motor V12 de superdesportivo com capacidades todo-o-terreno inéditas, tornando-se um dos modelos mais ousados e influentes da história da indústria automóvel.
Quatro décadas depois da sua apresentação oficial no Salão Automóvel de Bruxelas, em janeiro de 1986, o Lamborghini LM002 continua a ser uma das criações mais improváveis e fascinantes da história do automóvel. Numa época em que a marca de Sant'Agata Bolognese era reconhecida exclusivamente pelos seus superdesportivos de motor central, a decisão de desenvolver um veículo todo-o-terreno equipado com um motor V12 parecia contrariar toda a lógica do mercado. No entanto, essa visão acabaria por antecipar, em mais de trinta anos, o conceito moderno de Super SUV que hoje domina o segmento premium.
Longe de ter surgido por acaso, o LM002 foi o resultado de quase uma década de investigação e desenvolvimento. As suas origens remontam ao protótipo Cheetah, apresentado em 1977, um projeto desenvolvido em colaboração com a norte-americana Mobility Technology International com o objetivo de criar um veículo de utilização militar e elevada mobilidade. Apesar de nunca ter chegado à produção, esse modelo abriu caminho para uma sucessão de experiências técnicas que incluíram os protótipos LM001, LMA, LM003 e LM004, cada um deles contribuindo para aperfeiçoar uma arquitetura que viria a transformar-se no LM002 definitivo.

Uma das decisões técnicas mais importantes surgiu pelas mãos do engenheiro Giulio Alfieri. Após os testes realizados em ambientes extremos, concluiu-se que a configuração inicial, com o motor colocado na traseira, comprometia o equilíbrio dinâmico do veículo em terrenos difíceis. A solução passou por deslocar o lendário V12 para a dianteira, melhorando significativamente a distribuição de massas, a estabilidade e o controlo em condições extremas. Essa alteração tornou-se a base técnica que permitiu transformar um conceito experimental num verdadeiro automóvel de produção.
Quando chegou ao mercado, o LM002 era uma máquina sem paralelo. Debaixo do capot encontrava-se o conhecido motor V12 Quattrovalvole de 5,2 litros derivado do Countach, capaz de desenvolver aproximadamente 450 cavalos de potência. Para um veículo com mais de 2,7 toneladas, alcançar velocidades superiores a 200 km/h era um feito extraordinário na década de 1980, especialmente tratando-se de um automóvel concebido para enfrentar areia, pedra e inclinações extremas. Equipado com caixa manual ZF de cinco velocidades, redutoras e sistema de tração integral com diferenciais autoblocantes, o LM002 conseguia superar inclinações até 120% e atravessar cursos de água com cerca de 82 centímetros de profundidade sem preparação adicional.

Outro dos elementos que contribuiu para a sua reputação foram os pneus Pirelli Scorpion BK, desenvolvidos exclusivamente para este projeto. Concebidos para suportar elevadas velocidades e, simultaneamente, garantir capacidade de progressão em dunas e terrenos difíceis, estes pneus incorporavam soluções inspiradas diretamente na competição de ralis e permitiam inclusive continuar a circular após perda de pressão em determinadas circunstâncias. A sua tecnologia representou uma das primeiras transferências efetivas do desporto automóvel para um veículo de estrada deste género.
Apesar da sua aparência robusta e militarizada, o interior revelava um nível de luxo pouco habitual para um todo-o-terreno da época. Bancos revestidos em pele, acabamentos em madeira nobre, ar condicionado, sistema de som de elevada qualidade e até televisão opcional faziam parte das possibilidades de personalização, demonstrando que a Lamborghini pretendia criar um automóvel exclusivo tanto para utilização em ambientes extremos como para clientes que procuravam conforto e distinção.

Entre 1986 e 1992 foram produzidas apenas cerca de 300 unidades, número que contribuiu para transformar o LM002 numa das peças mais raras e valorizadas da história da marca. Ao longo da sua evolução surgiu ainda a versão LM/American, adaptada às exigentes normas de emissões dos Estados Unidos através da introdução de um sistema de injeção eletrónica e conversores catalíticos, mantendo um desempenho de elevado nível.
O impacto do LM002 só viria a ser plenamente reconhecido muitos anos depois. Quando a Lamborghini apresentou o conceito Urus, em 2012, e posteriormente lançou o modelo de produção em 2017, tornou-se evidente que a filosofia inaugurada pelo LM002 permanecia viva. O atual Urus não surgiu como uma rutura, mas sim como a evolução natural de uma ideia que parecia demasiado avançada para o seu tempo: unir desempenho de superdesportivo, versatilidade e luxo num único automóvel.




















Hoje, quarenta anos após a sua estreia, o LM002 é encarado como o verdadeiro precursor do conceito moderno de Super SUV. Mais do que uma curiosidade histórica, representa uma demonstração da capacidade da Lamborghini para desafiar convenções e antecipar tendências que apenas décadas depois seriam plenamente compreendidas pelo mercado.
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