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Editorial | Seguro mais caro para elétricos: as seguradoras continuam presas ao passado?

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    Artur Semedo - artur.semedo@publiracing.pt
  • há 2 horas
  • 5 min de leitura

Editorial | Seguro mais caro para elétricos: as seguradoras continuam presas ao passado?

As baterias dos automóveis elétricos já provaram que duram mais do que muitos dos próprios carros, a segurança evoluiu significativamente e a reparação começa a tornar-se mais acessível. Então porque continuam tantas seguradoras a cobrar prémios superiores pelos veículos elétricos? A realidade mudou, mas será que o setor segurador mudou com ela?


Há poucos anos, eu compreendia perfeitamente porque razão as companhias de seguros olhavam para um automóvel elétrico com alguma desconfiança.


Era uma tecnologia nova. Havia poucos dados estatísticos. Existiam poucas oficinas preparadas para reparar veículos de alta tensão. As baterias eram caras, pouco conhecidas e, em muitos casos, qualquer dano levantava dúvidas sobre a sua integridade estrutural.

Mas estamos em 2026.


E é precisamente por isso que começo a perguntar-me se as seguradoras não estarão a avaliar um mercado que já deixou de existir.


A bateria deixou de ser o "bicho-papão"

Durante anos, ouvimos a mesma ideia.

"A bateria é muito cara."

"A bateria custa mais que o carro"

"Se houver um acidente, o carro é perda total."

"A degradação é enorme."


Hoje, praticamente nenhum destes argumentos continua a refletir a realidade.


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Os estudos mais recentes da Geotab, baseados em milhares de veículos em circulação, apontam para uma degradação média anual das baterias na ordem dos 2% e mostram que, na maioria dos casos, estas ultrapassam facilmente a vida útil do próprio automóvel.


Ou seja, aquilo que durante anos foi apresentado como o maior risco dos elétricos tornou-se, ironicamente, um dos seus componentes mais duráveis e seguros.


Até os receios relacionados com incêndios têm sido progressivamente relativizados pelos dados disponíveis, que mostram que estes continuam a ser eventos raros quando comparados com o enorme número de veículos elétricos em circulação. O próprio desenvolvimento dos sistemas de gestão térmica e da química das baterias aumentou significativamente os níveis de segurança.


Então porque continua o seguro a tratar estes automóveis como se estivéssemos em 2018?


O verdadeiro problema não é a bateria

Na minha opinião, aqui está a maior confusão.


O prémio superior não tem como foco apenas a bateria e seu preço elevado

Existe porque reparar um elétrico ainda pode custar mais.


Os veículos elétricos possuem menos componentes mecânicos — cerca de duas dezenas no grupo motopropulsor, contra centenas ou mesmo milhares num veículo de combustão — mas continuam a exigir mão de obra altamente especializada, equipamentos específicos e procedimentos de segurança rigorosos sempre que existe intervenção na zona de alta tensão.


Além disso, muitas peças continuam disponíveis apenas através dos fabricantes.

Em alguns casos, uma pequena deformação na estrutura inferior pode obrigar a inspeções complexas ao pack da bateria.


Em consequência, diversos estudos indicam que uma reparação (não de revisão) de um elétrico pode continuar a custar cerca de 25% mais do que a de um veículo equivalente a combustão e demorar aproximadamente mais 14% até estar concluída.

Mas será que esta realidade vai manter-se durante muito mais tempo?


A própria indústria admite que os custos vão cair

Curiosamente, quem melhor responde a esta pergunta são os próprios especialistas do setor segurador.

Vários estudos internacionais apontam que o diferencial de custos deverá diminuir progressivamente à medida que:

  • aumenta o número de oficinas certificadas;

  • cresce a disponibilidade de peças;

  • surgem mais técnicos especializados;

  • os fabricantes desenvolvem baterias mais reparáveis;

  • os seguradores acumulam mais histórico estatístico sobre os veículos elétricos.


A própria análise da Tata Consultancy Services conclui que os prémios atuais refletem sobretudo uma fase de transição e que deverão baixar à medida que o mercado amadurece.

No Reino Unido já se observa exatamente essa tendência.

Apesar de o seguro dos elétricos continuar, em média, acima do equivalente a gasolina, o diferencial tem vindo a diminuir desde 2024, precisamente porque a rede de reparação cresceu e os seguradores passaram a compreender melhor o risco real destes veículos.


E Portugal?

É aqui que a questão se torna mais interessante.

Em Portugal, a eletrificação continua a acelerar e o custo total de utilização de um veículo elétrico é hoje, em muitos segmentos, mais competitivo do que o de um automóvel a combustão. O mais recente Car Cost Index da Ayvens coloca Portugal como o mercado europeu mais competitivo para utilizar um veículo elétrico em termos de custo total de utilização.


No entanto, quando chega a altura de contratar um seguro, muitos condutores continuam a deparar-se com prémios superiores aos esperados.


Naturalmente, cada seguradora utiliza modelos próprios de avaliação de risco e os preços variam em função do perfil do condutor, da potência, do valor do veículo, da frequência estatística de sinistros e de muitos outros fatores.


Mas continua a existir uma perceção generalizada de que "elétrico significa seguro caro".

E pergunto-me até que ponto essa perceção continua verdadeiramente alinhada com os dados atuais.


Estamos a pagar pelo passado?

Talvez esta seja a pergunta mais importante.

As seguradoras trabalham com estatística.

É assim que devem funcionar.

Mas também sei que a estatística precisa de acompanhar a realidade.

Se as baterias já demonstraram níveis elevados de fiabilidade...

Se os custos de manutenção dos elétricos são inferiores...

Se os motores elétricos possuem muito menos peças móveis...

Se a experiência acumulada aumenta todos os anos...

Porque continua o mercado segurador a tratar muitos destes automóveis como produtos de elevado risco?

Será prudência?

Ou será simplesmente inércia?


A minha opinião

Não acredito que as seguradoras estejam erradas por serem prudentes.

O risco deve ser calculado.

Mas também acredito que um setor que vive de dados tem a obrigação de atualizar rapidamente os seus modelos quando os próprios dados mostram uma mudança estrutural.

Os automóveis elétricos deixaram de ser uma experiência.

São uma realidade consolidada.

As baterias já provaram que conseguem sobreviver ao próprio veículo.

Os fabricantes estão a desenvolver arquiteturas cada vez mais reparáveis.

Os centros especializados multiplicam-se.

E o conhecimento técnico cresce todos os meses.

Talvez esteja na altura de o preço dos seguros começar finalmente a refletir essa nova realidade.


Porque, se a tecnologia evolui a esta velocidade, não faz sentido que o cálculo do risco continue preso ao passado.


Artur Semedo é Editor-Chefe & Especialista em Ensaios de Veículos

Com 18 anos de experiência em testes editoriais e análise de produtos e mercados em Portugal e no Brasil. Especialista, através de diversos cursos, certificado pela AEA (Associação Brasileira de Engenharia Automotiva) em Motores, Veículos Elétricos, Híbridos e Novas Tecnologias de Mobilidade.


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