Seat Toledo Marathon regressa ao deserto: 330 cv, tração integral e uma história que ficou por terminar no Dakar

Nasceu no início dos anos 1990 com o Dakar no horizonte, conquistou a primeira vitória internacional da Seat e acabou guardado antes de cumprir o objetivo para o qual tinha sido desenvolvido. Mais de três décadas depois, o único Toledo Marathon sobrevivente continua a competir. Em 2026, Toni Rius, um dos pilotos que participou no seu desenvolvimento, e Carles Jiménez voltam ao deserto com um protótipo de 330 cv cuja importância histórica obriga a encontrar um equilíbrio pouco habitual: lutar pela vitória sem esquecer que não existe outro para substituir este.
Há automóveis históricos que sobrevivem restaurados e cuidadosamente preservados num museu. O SEAT Toledo Marathon seguiu um caminho diferente. O protótipo criado pela Seat Sport para enfrentar os grandes raids dos anos 1990 regressou ao terreno para o qual foi concebido e volta, em 2026, a enfrentar areia, dunas, calor e navegação no ClassicsÁfrica.
Ao volante está Toni Rius, cuja ligação ao projeto remonta ao período em que o Toledo Marathon ainda era constituído por desenhos, tubos soldados e soluções técnicas em desenvolvimento. Ao seu lado segue Carles Jiménez, que tinha apenas 12 anos quando viu o protótipo exposto no Salão Automóvel de Barcelona de 1993. Hoje, os dois partilham o habitáculo da única unidade sobrevivente.
O Dakar que começou a ser preparado em 1990
A história do Toledo Marathon remonta ao final da década de 1980. A SEAT Sport, criada em 1985, já tinha desenvolvido projetos como o Ibiza Bimotor e o Marbella Proto para os ralis de terra quando começou a estudar uma participação no Dakar.
Em 1989 chegou a ser apresentada uma maqueta do Ibiza Marathon, mas a base escolhida para concretizar o projeto acabaria por ser o então novo Toledo. O programa arrancou em outubro de 1990, com Toni Rius envolvido desde os primeiros testes.
A ambição obrigou a desenvolver um automóvel que pouco tinha em comum, tecnicamente, com o Toledo encontrado nos concessionários.
O Marathon utilizava uma estrutura multitubular, carroçaria construída em fibra de carbono e Kevlar, motor colocado em posição central e tração às quatro rodas. O propulsor debitava 330 cv e o depósito de combustível chegava aos 400 litros, dimensão que ajuda a perceber as distâncias e condições para as quais o automóvel tinha sido concebido.

30 centímetros de curso de suspensão e milhares de quilómetros de testes
Grande parte do desenvolvimento decorreu nas pistas do Centro Técnico de Martorell, nas instalações do IDIADA e no deserto de Los Monegros. O objetivo era encontrar diferentes tipos de piso, acumular quilómetros e levar componentes e estrutura aos limites, mantendo simultaneamente o projeto afastado de olhares exteriores.
Um dos elementos tecnicamente mais interessantes estava na suspensão. O Toledo Marathon utilizava uma arquitetura de triângulos sobrepostos com cerca de 30 centímetros de curso, concebida para suportar grandes impactos, saltos e as sucessivas mudanças de terreno características dos raids.
Mais de três décadas depois, o princípio técnico encontra paralelos nos atuais protótipos Ultimate/T1+ utilizados no Dakar, ainda que a tecnologia, materiais, eletrónica e métodos de desenvolvimento tenham evoluído profundamente.
Na década de 1990, a validação dependia sobretudo dos quilómetros percorridos, das sensações transmitidas pelos pilotos e da capacidade dos engenheiros para interpretar o comportamento do automóvel após sucessivos impactos.
Foram realizados mais de 5.000 quilómetros de testes antes da estreia competitiva em 1993.
Uma estreia que conduziu à primeira vitória internacional da SEAT
O Toledo Marathon entrou oficialmente em competição na Baja Portugal de 1993, seguindo depois para a Baja Aragón e para o Raid da Grécia.
Foi precisamente na prova grega que o projeto alcançou o seu principal resultado. Josep Maria Servià e Enric Oller venceram, enquanto Toni Rius e Manel Casanova terminaram na segunda posição, garantindo uma dobradinha e aquela que a SEAT identifica como a sua primeira vitória internacional.
Curiosamente, a competição que deveria testar o protótipo em condições de terra e pó acabou transformada pela meteorologia. Uma forte queda de neve obrigou a equipa a abandonar a configuração de pneus inicialmente prevista e a recorrer a pneus estreitos com tacos.
Sem aquecimento no habitáculo e com os vidros a embaciarem, pilotos e copilotos tiveram de lidar com frio intenso e visibilidade reduzida. Ainda assim, os dois Toledo terminaram nas duas primeiras posições.
O Dakar nunca aconteceu
Depois da temporada de 1994, porém, a trajetória do projeto mudou. O Dakar de 1995, que deveria representar a concretização do programa, nunca chegou a ser disputado pelo Toledo Marathon.
A Seat Sport redirecionou os recursos para os ralis e o Ibiza acabaria por protagonizar uma nova etapa na competição internacional da marca. O protótipo foi preservado pela Seat Históricos, mantendo a sua configuração original e em condições de funcionamento.
O que parecia ser o encerramento definitivo da carreira competitiva acabou por transformar-se numa interrupção de quase três décadas.
Do museu novamente para África
Em 2023, a SEAT Históricos decidiu colocar novamente o Toledo Marathon em competição no ClassicsÁfrica. Toni Rius regressou ao volante e venceu a prova acompanhado por Pablo Moreno Huete.
Carles Jiménez deveria ter ocupado o lugar de copiloto nessa edição, mas encontrava-se em recuperação de um acidente de moto. A oportunidade chegaria posteriormente e a dupla passou a acumular quilómetros no deserto, terminando a edição de 2025 na segunda posição.
Em 2026, Rius e Jiménez regressam como tripulação da Seat Históricos e voltam a assumir a luta pelas primeiras posições.
Para Rius, há uma componente particularmente rara nesta história. O piloto não está simplesmente a conduzir um clássico semelhante ao automóvel que utilizou há três décadas. Está novamente aos comandos da máquina original que ajudou a desenvolver.
Para Jiménez, a história faz o percurso inverso. Em 1993 observava aquele mesmo automóvel no Salão de Barcelona, quando tinha 12 anos. Agora ocupa o banco direito.
Competir com um automóvel que não pode ser substituído
Existe, contudo, uma dificuldade que vai além da idade da mecânica. O Toledo Marathon utilizado atualmente não é uma réplica nem uma reconstrução moderna. Trata-se da unidade original sobrevivente, o que altera inevitavelmente a forma como uma competição no deserto é encarada.
Dunas escondem o terreno existente depois da crista, outros veículos podem estar imobilizados fora do campo de visão e os saltos colocam estrutura, suspensão e mecânica sob cargas elevadas. Acrescente-se um depósito capaz de transportar centenas de litros de combustível e percebe-se a dimensão do desafio colocado a um protótipo com mais de três décadas.
A dupla procura, por isso, manter uma margem de segurança sem abdicar da competitividade. Rius aposta numa condução que privilegia a precisão, enquanto Jiménez gere navegação, tempos e informação sobre o percurso.
É uma situação pouco habitual no automobilismo: quanto maior é a importância histórica do automóvel, maior é o conflito entre aquilo que uma corrida exige e aquilo que a preservação recomenda.
Uma segunda oportunidade para um projeto interrompido
O Toledo Marathon nunca chegou ao Dakar, apesar de ter sido criado precisamente com esse objetivo. O fim do programa deixou a sua história competitiva incompleta num momento em que o protótipo já tinha demonstrado capacidade para vencer internacionalmente.
Mais de 30 anos depois, África acabou por oferecer-lhe uma espécie de segundo capítulo.
O contexto é diferente, os adversários são outros e o Toledo é agora simultaneamente automóvel de competição e património histórico. Mas continua a fazer aquilo para que foi construído: atravessar terrenos difíceis, enfrentar longas distâncias e competir.
Para Toni Rius, é também o reencontro com uma máquina que ajudou a transformar de projeto em automóvel de corrida. Para Carles Jiménez, é a oportunidade de competir dentro daquele protótipo que, aos 12 anos, parecia pertencer a outro mundo. E para o único Toledo Marathon sobrevivente, o regresso ao deserto permite finalmente prolongar uma história que o Dakar de 1995 deixou por terminar.
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