
Artur Semedo - artur.semedo@publiracing.pt
17 de jan.



Artur Semedo - artur.semedo@publiracing.pt
31 de dez. de 2025



Redação Europa
12 de dez. de 2025



















A possibilidade de aprender a conduzir com um tutor, fora do modelo tradicional das escolas, está a gerar polémica em Portugal. Da minha parte, a posição é clara: concordo com a medida. Não como substituição do ensino formal, mas como complemento prático, realista e potencialmente mais eficaz para preparar novos condutores para a estrada. A chave não está em permitir tudo — está em regular bem.
O novo regime aprovado pelo Governo, integrado no pacote Mobilidade 2.0, altera o Regime Jurídico do Ensino da Condução e permite que os candidatos à carta de condução da categoria B possam praticar com um tutor, antes do exame, fora do ambiente exclusivo das escolas. Importa sublinhar desde já: os exames mantêm-se, a avaliação final continua a existir e as escolas conservam um papel determinante na validação das competências. Isto não é um “liberal geral”; é um modelo híbrido que rompe com um dogma antigo, mas não abdica do controlo institucional.
Há receios, e eles não são ilegítimos. O ACP, por exemplo, já manifestou preocupações com potenciais riscos para a segurança rodoviária. Leio esses alertas com atenção, mas chego a uma conclusão diferente: o problema não é a figura do tutor — é o desenho das regras que o enquadram. E é precisamente aí que entram os dados que já são conhecidos.
Segundo a informação já divulgada, o tutor poderá ser qualquer pessoa com carta de condução válida, desde que esteja devidamente registada no processo do candidato. Não é exigida, para já, formação específica ou certificação adicional para exercer esse papel. Esta é, sem dúvida, a parte mais sensível do novo regime — e aquela que mais discussão gera.
Dito isto, convém enquadrar: o tutor não substitui o instrutor, não valida competências e não “passa” ninguém no exame. A sua função é permitir prática adicional supervisionada, algo que hoje muitos alunos só conseguem em número limitado, por razões económicas ou logísticas. A escola de condução continua a avaliar, a diagnosticar falhas e a decidir se o candidato está — ou não — apto a ir a exame.
Este modelo não nasce do nada. Pelo contrário, Portugal está a alinhar-se com soluções que já existem noutros países europeus e fora da Europa, com resultados globalmente positivos quando bem regulados.
Na Alemanha, o sistema de condução acompanhada (“Begleitetes Fahren”) permite que jovens condutores pratiquem com supervisão antes de conduzirem sozinhos. Avaliações técnicas associadas ao programa apontam para reduções significativas do risco de acidente e de infrações no primeiro ano após a carta — em alguns estudos, na ordem dos dois dígitos percentuais.
Em França, a condução acompanhada (AAC) é há anos uma via reconhecida, inclusive por seguradoras, que associam este percurso a menores taxas de sinistralidade entre condutores jovens. O princípio é simples: mais horas de prática real, em contextos variados, antes de enfrentar a estrada sozinho.
No Reino Unido, qualquer aprendiz pode conduzir fora da escola desde que acompanhado por um condutor experiente que cumpra critérios objetivos (idade mínima, anos de carta, seguro adequado). Na Suécia, a prática privada também é permitida, mas enquadrada por regras claras e por uma cultura de responsabilidade que coloca a segurança no centro do processo.
Nenhum destes países aposta na ideia de que “quanto mais fechado o sistema, melhor o condutor”. Pelo contrário: apostam em experiência supervisionada, diversificada e progressiva.

A minha posição assenta em três ideias simples.
Primeiro, o maior risco não está antes do exame, mas depois dele. O primeiro ano de condução autónoma é estatisticamente o mais perigoso. Chegar a esse momento com mais horas reais de prática — e não apenas treino para passar no exame — é uma vantagem clara.
Segundo, nem todos os alunos conseguem praticar o suficiente no modelo atual. O tutor pode ajudar a colmatar essa lacuna, sem inflacionar custos e permitindo exposição a cenários que muitas vezes ficam fora das aulas: condução noturna, chuva, tráfego intenso, vias mais rápidas etc. Os exemplos estão ai, pessoas de diversas idades, passaram no exame, têm carta, mas são totalmente despreparados para conduzir em diversos cenários tendo comportamento potencialmente perigoso. Horas de experiencia, vão trazer para uma condução autónoma melhores condutores, não tenho duvida.
Terceiro, porque aprender apenas para “passar” é um erro estrutural. A condução segura constrói-se com repetição, margem de erro controlada e acompanhamento — não apenas com um guião decorado.
Prefiro um candidato que chegue ao exame — e ao primeiro ano de carta — com mais estrada feita, mais erros corrigidos e mais consciência do risco, do que alguém que passou porque cumpriu o mínimo exigido num circuito previsível. A condução com tutor não é um atalho; é uma ferramenta. E como qualquer ferramenta, pode construir ou destruir — depende de como for usada.
A pergunta que realmente importa não é se confiamos ou não nos tutores. É outra: queremos formar condutores para passar num exame ou para enfrentar a realidade da estrada? Se a resposta for a segunda, então esta mudança, bem regulada, faz mais sentido do que muitos querem admitir.
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