
Artur Semedo - artur.semedo@publiracing.pt
há 2 dias



Artur Semedo - artur.semedo@publiracing.pt
31 de dez. de 2025



Redação Europa
12 de dez. de 2025



















O que muda na tecnologia, na condução e até na oficina.
À primeira vista, a designação “mild-hybrid” pode induzir em erro. Para muitos condutores, um automóvel híbrido de 12 volts ou de 48 volts parece apenas uma evolução discreta do tradicional sistema Start/Stop. No entanto, por trás destes dois números esconde-se uma diferença profunda na forma como o automóvel gere energia, apoia o motor térmico e melhora — ou não — a eficiência real no dia a dia. A tensão do sistema elétrico não é um detalhe técnico irrelevante: é ela que define o alcance funcional de toda a eletrificação leve.
Nos últimos anos, os construtores passaram a adotar soluções de 12V e 48V para cumprir normas de emissões cada vez mais exigentes, mas também para tornar os motores a combustão mais suaves, eficientes e responsivos. Embora ambos os sistemas sejam classificados como mild-hybrid, o seu comportamento em estrada e as implicações técnicas são bastante distintas.
Antes de distinguir 12V e 48V, importa clarificar o conceito. Um mild-hybrid é um automóvel que utiliza um pequeno sistema elétrico de apoio ao motor de combustão, recorrendo a um motor-gerador e a uma bateria de capacidade reduzida. O objetivo não é permitir condução 100 % elétrica, mas sim apoiar o funcionamento do motor térmico em momentos-chave, como arranques, acelerações ou desacelerações.
Este sistema permite recuperar energia que seria desperdiçada em travagens, suavizar o funcionamento do Start/Stop e reduzir o esforço do motor a combustão em situações de maior exigência. No entanto, tudo isto depende da capacidade elétrica do sistema, e é aqui que entram as diferenças entre 12V e 48V.
O sistema mild-hybrid de 12 volts pode ser encarado como uma evolução direta da arquitetura elétrica tradicional do automóvel. Em muitos casos, utiliza um alternador mais sofisticado ou um motor-gerador ligado por correia ao motor térmico, capaz de recuperar pequenas quantidades de energia e de assistir o arranque do motor.
Na prática, o condutor sente sobretudo um Start/Stop mais rápido e suave, com menos vibrações e maior frequência de atuação. Há também ganhos modestos em consumo, especialmente em ambiente urbano, onde o sistema consegue desligar o motor com mais frequência e reaproveitar alguma energia nas desacelerações.
Contudo, a limitação do sistema de 12V está na sua própria natureza elétrica. A baixa tensão restringe a quantidade de potência que pode ser recuperada e devolvida ao sistema, o que limita a assistência em aceleração e a capacidade de alimentar consumidores elétricos mais exigentes sem recorrer ao motor térmico. É uma solução eficaz, simples e económica, mas claramente contida nas suas ambições.
O sistema de 48 volts representa um verdadeiro salto na eletrificação leve. Ao aumentar significativamente a tensão do sistema elétrico, os construtores conseguem trabalhar com mais potência e eficiência, sem entrar ainda no domínio da alta tensão dos híbridos plenos ou elétricos puros.
Num mild-hybrid de 48V, o motor-gerador é substancialmente mais potente e trabalha em conjunto com uma bateria de iões de lítio dedicada, além de um conversor DC/DC que alimenta a tradicional rede de 12V do automóvel. Esta arquitetura permite recuperar mais energia em desaceleração e devolvê-la de forma mais eficaz ao motor térmico.
Na condução, isso traduz-se em arranques mais vigorosos, respostas mais imediatas em baixas rotações e, sobretudo, numa maior capacidade de reduzir o esforço do motor a combustão. Em muitos modelos, o sistema de 48V permite estratégias mais sofisticadas de “sailing” ou rolamento com o motor desligado, aumentando a eficiência em estrada e autoestrada.
Outro fator decisivo é a forma como o sistema mild-hybrid está integrado no conjunto mecânico. A arquitetura mais comum, tanto em 12V como em 48V, é a chamada P0, onde o motor-gerador está ligado ao motor térmico por correia, funcionando como um alternador reforçado.
Esta solução é relativamente simples, compacta e económica, mas limita a capacidade de atuação do sistema elétrico. Existem arquiteturas mais integradas, como P1 ou P2, em que o motor elétrico está montado diretamente no virabrequim ou na transmissão, permitindo maior eficiência e intervenção mais direta na tração. No entanto, estas soluções são mais complexas e menos comuns no universo mild-hybrid.
Do ponto de vista da manutenção, os sistemas de 12V são os mais próximos de um automóvel convencional. A bateria de 12V continua a desempenhar um papel central, e os componentes adicionais não exigem, regra geral, procedimentos muito diferentes dos já conhecidos nas oficinas.
Já o mild-hybrid de 48V introduz um nível adicional de complexidade. A presença de uma bateria de 48V, de um conversor DC/DC e de cablagem específica obriga a cuidados acrescidos em diagnóstico e reparação. Embora não se trate de alta tensão como nos elétricos puros, o sistema exige formação técnica adequada, procedimentos de segurança e ferramentas de diagnóstico mais avançadas.
Isto não significa que os sistemas de 48V sejam problemáticos, mas sim que representam um passo intermédio entre a mecânica tradicional e a eletrificação mais profunda, com implicações claras na forma como são mantidos ao longo da vida útil do veículo.
Na prática, o mild-hybrid de 12V destaca-se pela simplicidade, custo mais contido e manutenção menos exigente, oferecendo melhorias reais em conforto e eficiência, ainda que limitadas. Já o sistema de 48V é mais eficaz, mais versátil e mais alinhado com as exigências atuais de eficiência e emissões, mas implica maior complexidade técnica e custos potencialmente mais elevados em caso de reparação.
Importa também desfazer um mito recorrente: nenhum destes sistemas transforma o automóvel num híbrido capaz de circular em modo elétrico puro. O mild-hybrid é, acima de tudo, uma tecnologia de apoio ao motor a combustão, não um substituto da eletrificação total.
Os sistemas híbridos de 12V e 48V partilham o mesmo propósito — tornar os motores a combustão mais eficientes, suaves e compatíveis com as exigências ambientais atuais. No entanto, seguem caminhos técnicos diferentes, com impactos claros na condução, na eficiência real e na manutenção.
Num mercado em transição, o 12V representa a eletrificação mínima viável, enquanto o 48V surge como a solução mais robusta e preparada para o futuro imediato. Para o condutor atento e para o profissional da área, compreender estas diferenças é essencial para perceber o que realmente está por trás do emblema “mild-hybrid” colado na tampa da bagageira.
Este conteúdo é assinado por Artur Semedo, editor de veículos do Publiracing, com formação técnica especializada em motores de combustão, sistemas híbridos e veículos 100 % elétricos, adquirida através de diversos cursos realizados junto da AEA – Associação Brasileira de Engenharia Automotiva, reforçando o rigor e a credibilidade da análise apresentada.
👉 “A Revista Publiracing acredita em jornalismo isento, relevante e de qualidade. Se também valoriza informação independente, considere apoiar o nosso trabalho.”
Saiba mais clicando aqui ou vá para o link de apoio abaixo































Comentários