
Artur Semedo - artur.semedo@publiracing.pt
8 de jun.



Artur Semedo - artur.semedo@publiracing.pt
6 de abr.










Durante anos, venderam-nos a ideia de que o futuro do automóvel passava por ecrãs gigantes e interiores minimalistas. Em 2026, a realidade começa a impor-se: reguladores, estudos e até os próprios construtores estão a dar um passo atrás. A pergunta é inevitável — fomos longe demais na digitalização?
Confesso: durante muito tempo, também achei fascinante entrar num carro e ver um tablier dominado por um ecrã. Limpo, moderno, quase futurista. Era a promessa de uma nova era — o automóvel como extensão do smartphone.
Mas hoje, olhando para o que está a acontecer em 2026, começo a questionar-me seriamente: será que confundimos inovação com simplificação… e acabámos por complicar tudo?
O ponto de viragem é claro e tem nome: Euro NCAP.
A partir de 2026, os testes de segurança vão passar a penalizar veículos que dependam exclusivamente de ecrãs para funções essenciais. Indicadores, luzes de emergência, limpa-vidros, buzina ou sistema de emergência — tudo isto deverá ter comandos físicos para que um carro consiga atingir as desejadas cinco estrelas.2
A lógica é simples, mas poderosa: quanto mais tempo o condutor tira os olhos da estrada para procurar uma função num ecrã, maior o risco.
Aliás, os próprios reguladores admitem isso sem rodeios: os novos testes pretendem “limitar o tempo em que os olhos deixam a estrada” e tornar a condução mais intuitiva.
E aqui está o ponto-chave: o problema não é a tecnologia. É a forma como a estamos a usar.
O mais interessante — e talvez revelador — é que esta mudança não está a ser imposta apenas por reguladores. Está também a nascer dentro da própria indústria.
Marcas como a Volkswagen já vieram admitir que foram longe demais na substituição de botões por controlos táteis, prometendo reintroduzir comandos físicos depois de feedback negativo dos clientes.
E não é caso único. Há um movimento claro: Audi, Hyundai, Kia e outros construtores estão a regressar a soluções mais táteis, mais intuitivas, mais… humanas, ou aquilo que sempre idealizamos como o cenário perfeito, o equilibrio.
Porquê? Porque os condutores nunca deixaram de preferir botões.
Estudos indicam que a esmagadora maioria dos utilizadores considera os ecrãs mais distrativos e menos intuitivos, especialmente quando funções básicas estão escondidas em menus.
E, sinceramente, quem nunca passou segundos preciosos a tentar ajustar a climatização ou encontrar o limpa-vidros, ou a abertura de um porta-luvas num ecrã… sabe exatamente do que estamos a falar.

Do ponto de vista técnico, isto já era conhecido.
Interfaces táteis exigem atenção visual constante. Ao contrário de um botão físico, que podemos usar “de memória”, um ecrã obriga-nos a olhar, confirmar e corrigir.
Num smartphone, isso é irrelevante. Num carro em movimento, não é.
E talvez aqui esteja o erro original: tratámos o automóvel como um gadget tecnológico, quando ele continua a ser, acima de tudo, uma máquina em movimento — onde cada segundo de distração conta.
Na minha opinião, não estamos a assistir a um retrocesso. Estamos a assistir a um reajuste.
O futuro do automóvel não será analógico. Mas também não será totalmente digital.
Será híbrido.
Ecrãs continuarão a dominar infotainment, navegação e conectividade. Mas funções críticas — aquelas que exigem resposta imediata — vão regressar ao mundo físico.
Não por nostalgia. Por necessidade.
E isso vai obrigar os designers a fazer algo que talvez tenham deixado de fazer: equilibrar estética com ergonomia, inovação com intuição.
Se há algo que esta “volta aos botões” nos ensina é que o automóvel não pode seguir cegamente a lógica da tecnologia de consumo.
Um carro não é um smartphone. Nunca foi.
E talvez tenha sido preciso chegar a 2026, com reguladores a intervir e marcas a recuar, para a indústria perceber uma coisa simples: o futuro não está apenas no que é possível fazer — mas no que faz sentido usar.
E, no meio de tanta inovação, talvez o verdadeiro avanço seja este: voltar a colocar o condutor no centro.
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