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Editorial: O regresso dos botões: afinal, o futuro do automóvel estava… no passado

  • Foto do escritor: Artur Semedo - artur.semedo@publiracing.pt
    Artur Semedo - artur.semedo@publiracing.pt
  • 21 de mar.
  • 3 min de leitura


Durante anos, venderam-nos a ideia de que o futuro do automóvel passava por ecrãs gigantes e interiores minimalistas. Em 2026, a realidade começa a impor-se: reguladores, estudos e até os próprios construtores estão a dar um passo atrás. A pergunta é inevitável — fomos longe demais na digitalização?


Confesso: durante muito tempo, também achei fascinante entrar num carro e ver um tablier dominado por um ecrã. Limpo, moderno, quase futurista. Era a promessa de uma nova era — o automóvel como extensão do smartphone.


Mas hoje, olhando para o que está a acontecer em 2026, começo a questionar-me seriamente: será que confundimos inovação com simplificação… e acabámos por complicar tudo?


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Quando a segurança começa a travar a tecnologia

O ponto de viragem é claro e tem nome: Euro NCAP.

A partir de 2026, os testes de segurança vão passar a penalizar veículos que dependam exclusivamente de ecrãs para funções essenciais. Indicadores, luzes de emergência, limpa-vidros, buzina ou sistema de emergência — tudo isto deverá ter comandos físicos para que um carro consiga atingir as desejadas cinco estrelas.2


A lógica é simples, mas poderosa: quanto mais tempo o condutor tira os olhos da estrada para procurar uma função num ecrã, maior o risco.


Aliás, os próprios reguladores admitem isso sem rodeios: os novos testes pretendem “limitar o tempo em que os olhos deixam a estrada” e tornar a condução mais intuitiva.


E aqui está o ponto-chave: o problema não é a tecnologia. É a forma como a estamos a usar.


O erro que a indústria começa a admitir

O mais interessante — e talvez revelador — é que esta mudança não está a ser imposta apenas por reguladores. Está também a nascer dentro da própria indústria.

Marcas como a Volkswagen já vieram admitir que foram longe demais na substituição de botões por controlos táteis, prometendo reintroduzir comandos físicos depois de feedback negativo dos clientes.


E não é caso único. Há um movimento claro: Audi, Hyundai, Kia e outros construtores estão a regressar a soluções mais táteis, mais intuitivas, mais… humanas, ou aquilo que sempre idealizamos como o cenário perfeito, o equilibrio.


Porquê? Porque os condutores nunca deixaram de preferir botões.

Estudos indicam que a esmagadora maioria dos utilizadores considera os ecrãs mais distrativos e menos intuitivos, especialmente quando funções básicas estão escondidas em menus.


E, sinceramente, quem nunca passou segundos preciosos a tentar ajustar a climatização ou encontrar o limpa-vidros, ou a abertura de um porta-luvas num ecrã… sabe exatamente do que estamos a falar.


Cartoon 21/03/26
Cartoon 21/03/26

O problema não é novo — só foi ignorado

Do ponto de vista técnico, isto já era conhecido.

Interfaces táteis exigem atenção visual constante. Ao contrário de um botão físico, que podemos usar “de memória”, um ecrã obriga-nos a olhar, confirmar e corrigir.


Num smartphone, isso é irrelevante. Num carro em movimento, não é.


E talvez aqui esteja o erro original: tratámos o automóvel como um gadget tecnológico, quando ele continua a ser, acima de tudo, uma máquina em movimento — onde cada segundo de distração conta.


O futuro não é menos tecnologia — é melhor tecnologia

Na minha opinião, não estamos a assistir a um retrocesso. Estamos a assistir a um reajuste.

O futuro do automóvel não será analógico. Mas também não será totalmente digital.

Será híbrido.


Ecrãs continuarão a dominar infotainment, navegação e conectividade. Mas funções críticas — aquelas que exigem resposta imediata — vão regressar ao mundo físico.

Não por nostalgia. Por necessidade.


E isso vai obrigar os designers a fazer algo que talvez tenham deixado de fazer: equilibrar estética com ergonomia, inovação com intuição.


A grande lição

Se há algo que esta “volta aos botões” nos ensina é que o automóvel não pode seguir cegamente a lógica da tecnologia de consumo.

Um carro não é um smartphone. Nunca foi.


E talvez tenha sido preciso chegar a 2026, com reguladores a intervir e marcas a recuar, para a indústria perceber uma coisa simples: o futuro não está apenas no que é possível fazer — mas no que faz sentido usar.


E, no meio de tanta inovação, talvez o verdadeiro avanço seja este: voltar a colocar o condutor no centro.


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