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McLaren muda para nova identidade e prepara a marca para uma era mais ampla

há 1 dia
7 min de leitura
McLaren muda para nova identidade e prepara a marca para uma era mais ampla

A McLaren revelou uma evolução profunda da sua identidade visual, mas a mudança vai muito além de um novo logótipo. Ao recuperar símbolos das origens de Bruce McLaren e, simultaneamente, unificar Automotive e Racing sob uma linguagem comum, a marca prepara-se para um futuro em que pretende deixar de ser reconhecida apenas pelos superdesportivos e pela Fórmula 1. A nova identidade chega no momento em que a McLaren amplia o seu universo de produto, experiências, personalização e comunidade — e se prepara para entrar em territórios até agora inéditos.


Há mudanças de identidade visual que procuram simplesmente modernizar uma marca. E há outras que acontecem porque a própria empresa está a mudar. No caso da McLaren, a nova identidade apresentada esta terça-feira, 22 de setembro, pertence claramente ao segundo grupo.


A marca britânica decidiu revisitar mais de seis décadas de história para construir uma identidade capaz de representar, numa mesma linguagem, a McLaren Automotive e a McLaren Racing. O resultado não procura romper com aquilo que o público reconhece. Pelo contrário: recupera as origens, preserva alguns dos símbolos mais valiosos e reorganiza-os para sustentar uma McLaren que pretende ser maior do que a soma dos automóveis de estrada e da competição.


Do ponto de vista de branding, é aqui que está a parte mais interessante da mudança. A McLaren não está a tentar apagar o passado para parecer mais contemporânea; está a transformar a própria história num ativo que justifica a expansão futura da marca.


Um novo logótipo que regressa ao início de tudo

O elemento mais evidente da nova identidade é o wordmark McLaren. E, curiosamente, para desenhar aquilo que deve representar o futuro, a empresa foi buscar inspiração praticamente ao ponto zero.


A referência vem da estação de serviço da família McLaren em Remuera, Auckland, na Nova Zelândia. O estabelecimento pertencia a Les e Ruth McLaren, pais de Bruce McLaren, e foi nesse ambiente que o jovem Bruce construiu o automóvel com que alcançaria a sua primeira vitória em competição.


A tipografia utilizada no letreiro daquele negócio familiar serviu agora como ponto de partida para a nova assinatura da marca.


É uma decisão significativa em termos de identidade. Num setor em que muitos fabricantes simplificaram logótipos e tipografias a pensar sobretudo nos ambientes digitais, a McLaren optou por associar explicitamente o novo desenho a uma história que lhe pertence.


Não é nostalgia pela nostalgia. É aquilo que, em branding, pode ser entendido como recuperação de códigos proprietários: elementos que dificilmente podem ser replicados por concorrentes porque estão diretamente ligados à história e à cultura da organização.


David Woodhouse, Chief Creative Officer da McLaren Automotive, enquadra esta evolução nesse contexto, descrevendo-a como uma representação física da ambição, criatividade e movimento que deverão marcar a próxima etapa da empresa.


McLaren muda para nova identidade e prepara a marca para uma era mais ampla

Mudar sem destruir reconhecimento

Talvez tão importante como aquilo que mudou seja aquilo que a McLaren decidiu não mudar.


O conhecido Speedmark permanece como um dos elementos centrais da identidade. Ao longo dos anos tornou-se provavelmente o símbolo gráfico mais imediatamente reconhecível da McLaren contemporânea, e abandoná-lo significaria desperdiçar capital visual acumulado durante décadas.


Também o Papaya, inseparável da história desportiva da McLaren, mantém um papel fundamental.


A diferença é que deixa de estar praticamente sozinho. A nova identidade introduz uma paleta cromática mais ampla, construída a partir de diferentes momentos históricos da marca — o que dá à McLaren maior flexibilidade para comunicar em áreas muito distintas sem abandonar os seus códigos principais.


E regressa igualmente o Speedy Kiwi, ligação direta às origens neozelandesas de Bruce McLaren e um dos símbolos históricos mais peculiares da empresa.


A combinação é reveladora da estratégia: novo wordmark, símbolos conhecidos, cores históricas e referências às origens. Em vez de procurar uma reinvenção absoluta, a McLaren está a criar um sistema visual mais amplo em torno de ativos que já possuem significado.


Racing e Automotive passam a falar a mesma língua

Existe ainda uma dimensão corporativa importante nesta mudança.

Durante muitos anos, McLaren Racing e McLaren Automotive construíram universos próprios, apesar de partilharem nome, história e muitos dos mesmos valores. A nova identidade procura aproximar essas duas dimensões.


As equipas das duas áreas trabalharam a partir dos arquivos comuns da marca, procurando símbolos, histórias e detalhes que atravessam a trajetória de Bruce McLaren desde a Nova Zelândia até à atual estrutura global.


O objetivo é fazer com que a experiência McLaren tenha maior coerência independentemente do ponto de contacto: um Fórmula 1, um superdesportivo, uma experiência para clientes, conteúdos digitais, merchandising, eventos ou futuras categorias de produto.


Para Lou McEwen, Chief Marketing Officer da McLaren Racing, a nova identidade faz essa ponte entre a herança partilhada e as ambições futuras, mantendo símbolos que adeptos, parceiros e membros das equipas já reconhecem.


Do ponto de vista de marca, esta aproximação tem valor adicional. Poucos fabricantes possuem uma plataforma desportiva global tão poderosa como a Fórmula 1 e, ao criar maior continuidade entre competição e produto, a McLaren pode transferir com mais facilidade notoriedade, emoção e associação tecnológica de um universo para o outro.


McLaren muda para nova identidade e prepara a marca para uma era mais ampla

A McLaren já não quer vender apenas automóveis

É provavelmente neste ponto que a evolução da identidade ganha maior significado estratégico.


A McLaren afirma que pretende construir uma expressão mais ampla da propriedade e do fandom, ultrapassando os produtos e os resultados em pista para reforçar personalização, experiências e comunidade.


Esta linguagem aproxima a McLaren da lógica contemporânea das marcas de luxo: o produto continua no centro, mas deixa de ser o único ponto de relacionamento com o cliente.


Possuir um McLaren deverá significar progressivamente pertencer a um ecossistema.

Experiências exclusivas, personalização, eventos, competição, conteúdos, comunidade e produtos associados podem prolongar a relação com clientes e fãs muito para além do momento da compra de um automóvel.


Há também uma razão económica para esta abordagem. Uma marca de luxo forte não depende apenas do volume de produtos vendidos; depende da capacidade de transformar reconhecimento, desejo e pertença em valor através de diferentes pontos de contacto.


Nesse contexto, Racing deixa de ser apenas competição e Automotive deixa de ser apenas automóveis. Ambos passam a funcionar como expressões de uma mesma marca.


O momento da mudança não é coincidência

A apresentação da nova identidade surge depois de vários movimentos realizados pela McLaren ao longo de 2026.


A empresa voltou a colocar Bruce McLaren e as origens da marca no centro da narrativa, recuperando nomeadamente a história do M6GT, uma das primeiras manifestações da ambição de Bruce de levar para a estrada aquilo que a McLaren aprendera em competição.

Essa ligação foi posteriormente transportada para o presente através do McL 6GT, utilizado como demonstração contemporânea da direção de design e desempenho da empresa.


Na competição, a McLaren Racing celebrou o seu 1000.º Grande Prémio na Fórmula 1 e confirmou o desenvolvimento do Hypercar destinado ao Campeonato Mundial de Resistência (WEC), abrindo uma nova frente na tentativa de conquistar os grandes marcos internacionais do desporto automóvel.


Mas existe outra transformação, talvez ainda mais importante para compreender esta nova identidade.


A McLaren Automotive confirmou um programa de investimento de 500 milhões de libras destinado à expansão das capacidades de produção e engenharia no Reino Unido. Esse plano deverá suportar uma nova fase de crescimento e, sobretudo, levar a marca para além do território tradicional dos desportivos de dois lugares, incluindo a chegada de um futuro SUV.


O desafio de esticar uma marca sem a diluir

É neste ponto que a estratégia de branding enfrenta o seu verdadeiro teste.

Durante décadas, McLaren significou competição, leveza, aerodinâmica, desempenho e, no universo dos automóveis de estrada, produtos extremamente especializados. O McLaren F1 transformou-se numa das maiores referências da história dos superdesportivos, e os modelos que se seguiram continuaram, com diferentes interpretações, essa ligação entre engenharia e competição.


McLaren muda para nova identidade e prepara a marca para uma era mais ampla

Um SUV muda inevitavelmente o perímetro da marca.

A questão estratégica não será apenas saber se a McLaren consegue construir um SUV tecnicamente convincente. Será conseguir convencer clientes e entusiastas de que um veículo desse género continua a representar os mesmos valores que fizeram da McLaren aquilo que é.


É também por isso que resgatar a história neste momento pode fazer toda a diferença.

Antes de alargar a gama, a McLaren está a reforçar aquilo que define a marca.


Em vez de construir a identidade futura em torno de uma determinada arquitetura de automóvel — dois lugares, motor central ou carroçaria baixa — procura ancorá-la em conceitos mais amplos: inovação, ambição, criatividade, desempenho e vontade de desafiar convenções.


Se esses forem aceites como os verdadeiros códigos McLaren, a marca ganha liberdade para entrar em novos segmentos sem ficar limitada pela forma dos produtos que construiu no passado.


Bruce McLaren como ativo de marca

Existe ainda uma diferença importante relativamente a muitos concorrentes: a McLaren possui uma história profundamente ligada a uma pessoa.


Bruce McLaren não é apenas o nome colocado sobre a empresa. Piloto, engenheiro, construtor e fundador, representa uma narrativa que combina competição, experimentação e empreendedorismo.


A nova identidade procura explorar muito mais intensamente esse património.

O letreiro da estação de serviço familiar, o Speedy Kiwi, o Papaya, os primeiros automóveis e a própria trajetória de Bruce passam a formar um conjunto de códigos capazes de diferenciar a McLaren num mercado de luxo cada vez mais disputado.


E essa autenticidade histórica ganha ainda mais peso quando novas marcas — muitas delas tecnologicamente avançadas e financeiramente poderosas — procuram conquistar espaço entre consumidores de elevado poder de compra.


Tecnologia pode ser desenvolvida. Desempenho pode ser ultrapassado. Uma história genuína de mais de 60 anos não pode ser criada retroativamente.


Uma nova identidade para uma McLaren maior

A McLaren descreve esta evolução como o início de um novo capítulo e não como um destino final. É uma distinção importante.


O novo desenho gráfico é apenas a parte visível de uma transformação muito mais ampla.

Por trás do novo wordmark estão uma maior integração entre Automotive e Racing, o investimento industrial no Reino Unido, o regresso ao WEC, a expansão da personalização, a procura de relações mais profundas com clientes e fãs e, principalmente, uma futura gama de produtos que deixará de estar limitada aos tradicionais desportivos de dois lugares.


O paradoxo é interessante: para conseguir tornar-se uma marca mais ampla, a McLaren decidiu primeiro olhar mais profundamente para as suas origens.


E talvez esteja aí a verdadeira lógica desta evolução. A nova identidade não procura fazer a McLaren parecer diferente. Procura definir com maior clareza aquilo que tem de continuar a ser McLaren quando os próprios produtos começarem a ser diferentes.


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