
Artur Semedo - artur.semedo@publiracing.pt
9 de ago.



Artur Semedo - artur.semedo@publiracing.pt
8 de jun.










A Polestar fechou o primeiro semestre de 2026 com 30.423 automóveis vendidos, praticamente o mesmo volume de há um ano, mas com receitas em queda de 4,4% e um prejuízo líquido ainda elevado, de 842 milhões de dólares. A fabricante conseguiu reduzir em 42,6% o prejuízo operacional reportado face a 2025, embora a comparação seja fortemente influenciada pelas imparidades registadas no ano anterior. Ao mesmo tempo, a reestruturação das operações nos Estados Unidos acrescentou cerca de 211 milhões de dólares às perdas e a empresa reviu em baixa a previsão de crescimento para 2026.
Os resultados apresentados pela Polestar para os primeiros seis meses de 2026 mostram uma empresa que conseguiu melhorar alguns dos principais indicadores contabilísticos, mas que continua longe da rentabilidade e enfrenta um contexto comercial e regulatório particularmente difícil. As vendas a clientes finais atingiram 30.423 automóveis, mais 0,4% do que os 30.289 registados no mesmo período de 2025, enquanto as receitas recuaram de 1.423 para 1.360 milhões de dólares, uma queda de 4,4%.
A combinação entre vendas praticamente estagnadas e receitas em queda é um dos sinais mais relevantes dos resultados. A própria Polestar reconhece pressão sobre os preços, custos associados às garantias de valor residual — sobretudo nos Estados Unidos —, menores receitas provenientes da venda de créditos de carbono e efeitos relacionados com a reestruturação norte-americana. As receitas com créditos de carbono diminuíram de 90 para 57 milhões de dólares no semestre.
Indicador | H1 2026 | H1 2025 | Variação |
Vendas a clientes | 30.423 | 30.289 | +0,4% |
Receitas | 1.360 M USD | 1.423 M USD | -4,4% |
Resultado bruto | -115 M USD | -703 M USD | +83,7% |
Margem bruta | -8,4% | -49,4% | +41,0 p.p. |
Margem bruta ajustada | -8,5% | 1,4% | -9,9 p.p. |
Prejuízo operacional | -629 M USD | -1.096 M USD | melhoria de 42,6% |
Prejuízo líquido | -842 M USD | -1.193 M USD | melhoria de 29,4% |
EBITDA ajustado | -521 M USD | -302 M USD | deterioração de 72,5% |
Caixa em 30 de junho | 888 M USD | 719 M USD* | — |
*Comparação indicada pela Polestar com a posição no final do primeiro semestre de 2025. Dados financeiros em milhões de dólares.
À primeira vista, a redução do prejuízo operacional de 1.096 milhões para 629 milhões de dólares representa uma evolução significativa. O prejuízo líquido também caiu 29,4%, de 1.193 milhões para 842 milhões de dólares. No entanto, estes números precisam de ser interpretados à luz de um elemento extraordinário que penalizou fortemente as contas de 2025.
No primeiro semestre do ano passado, a Polestar reconheceu 724 milhões de dólares em imparidades líquidas, um impacto que praticamente desapareceu em 2026. É esta diferença que explica uma parte importante da melhoria do resultado bruto, da margem bruta e do prejuízo operacional reportado.
Quando se retiram alguns destes efeitos e se observa a margem bruta ajustada, a situação torna-se menos favorável: passou de 1,4% positivo no primeiro semestre de 2025 para -8,5% em 2026. O resultado bruto ajustado, que tinha sido positivo em 20 milhões de dólares, tornou-se negativo em 116 milhões.
O mesmo acontece com o EBITDA ajustado. A perda aumentou de 302 para 521 milhões de dólares, uma deterioração de 219 milhões. Ou seja, apesar da melhoria expressiva dos resultados contabilísticos reportados, os indicadores ajustados mostram que a pressão sobre a atividade operacional permanece elevada.
O segundo trimestre isoladamente reforça essa leitura. Entre abril e junho, a Polestar vendeu 17.296 automóveis, menos 4% do que os 18.026 do mesmo período de 2025. As receitas recuaram 8,1%, de 791 para 727 milhões de dólares.
O prejuízo líquido trimestral diminuiu fortemente, de 1.027 milhões para 459 milhões de dólares, mas novamente devido em grande medida às imparidades de 724 milhões registadas no segundo trimestre de 2025. Já o EBITDA ajustado deteriorou-se de uma perda de 206 milhões para 286 milhões de dólares, enquanto a margem bruta ajustada caiu de -5,6% para -13,1%.
Esta diferença entre os resultados reportados e os ajustados é fundamental para interpretar corretamente o semestre. A Polestar apresenta uma redução importante dos prejuízos contabilísticos, mas isso ainda não significa que o negócio tenha atingido uma trajetória sustentável de rentabilidade.
Um dos principais problemas surgiu nos Estados Unidos. Em junho, o Bureau of Industry and Security do Departamento de Comércio norte-americano informou a Polestar de que não concederia à empresa uma autorização ao abrigo das regras relativas a veículos conectados para comercializar automóveis de model year 2027 em diante no país.
A consequência é estrutural. A Polestar prevê continuar a vender veículos de anos-modelo anteriores existentes em stock e, posteriormente, cessar a comercialização de automóveis novos nos Estados Unidos, mantendo operações destinadas a apoiar os clientes existentes, incluindo assistência, rede de serviço e garantias.
A empresa estima que as operações norte-americanas tenham aumentado o prejuízo operacional consolidado do primeiro semestre em cerca de 211 milhões de dólares, contra aproximadamente 110 milhões no mesmo período de 2025. Só no segundo trimestre, o impacto estimado no prejuízo operacional foi de 170 milhões.
Dentro desse valor, aproximadamente 130 milhões de dólares em ajustamentos negativos estão diretamente relacionados com a decisão das autoridades norte-americanas, incluindo garantias de valor residual, redução do valor contabilístico dos stocks e provisões associadas a trabalhadores, fornecedores e parceiros. A própria Polestar admite que poderão surgir custos adicionais à medida que a reestruturação avance.
Existe ainda outro contraste nos números. A Polestar terminou junho com 235 pontos de venda, contra 170 um ano antes, uma expansão de 38,2%. Excluindo a China, o crescimento foi de 39,1%. Durante o semestre foram abertos 24 novos pontos e adicionados 20 novos parceiros de retalho, levando o total para 178.
A expansão física ainda não se traduziu, porém, num crescimento equivalente das vendas: as entregas a clientes aumentaram apenas 0,4% no semestre. Este desfasamento será um dos indicadores a acompanhar nos próximos trimestres, sobretudo porque a empresa está a abandonar progressivamente o modelo de venda predominantemente direto e a reforçar uma estrutura comercial baseada em pontos de venda e parceiros locais.
A liquidez é outro ponto central. A Polestar terminou junho com aproximadamente 888 milhões de dólares em caixa, depois de começar o ano com 1.159 milhões. Durante o semestre, as atividades operacionais consumiram 850 milhões de dólares e os investimentos outros 211 milhões. Em sentido contrário, as atividades de financiamento proporcionaram uma entrada líquida de 769 milhões.
Parte importante desse financiamento resultou de 700 milhões de dólares de novo capital obtidos junto de investidores. Paralelamente, cerca de 640 milhões de dólares em empréstimos da Geely Sweden e Volvo Cars foram convertidos em capital da Polestar, enquanto a Volvo Cars prolongou de dezembro de 2028 para dezembro de 2031 a maturidade do empréstimo acionista remanescente de 660 milhões de dólares.
São movimentos que reforçam a estrutura financeira no curto prazo, mas os 850 milhões de dólares consumidos pelas operações durante apenas seis meses mostram por que razão a liquidez e a capacidade de obter financiamento continuam a ser questões fundamentais para a fabricante.
O contexto levou também a empresa a rever em baixa as expectativas para o conjunto do ano. A previsão anterior apontava para um crescimento das vendas na casa dos dois dígitos baixos; agora, a Polestar espera apenas um aumento de um dígito baixo a médio em 2026.
A fabricante justifica a revisão com o desempenho do primeiro semestre e com a transição da gama, numa altura em que o atual Polestar 2 se aproxima do final do ciclo comercial. Em sentido contrário, a empresa espera beneficiar da chegada de novos produtos.
O Polestar 4 SUV, cujas encomendas já foram abertas, entrou em produção em Busan, na Coreia do Sul, e as primeiras unidades foram expedidas com entregas previstas para o quarto trimestre. Os primeiros Polestar 5 deverão chegar aos clientes nas próximas semanas. A empresa planeia lançar quatro novos automóveis num período de três anos, incluindo posteriormente o sucessor do Polestar 2.
Os resultados do primeiro semestre deixam, assim, duas leituras distintas. A Polestar reduziu significativamente os prejuízos reportados, reforçou a liquidez e expandiu a rede comercial, ao mesmo tempo que prepara uma renovação importante da gama. Mas uma parte substancial da melhoria financeira resulta da ausência das grandes imparidades que penalizaram 2025.
Por baixo dessa comparação contabilística, continuam os sinais de pressão: receitas em queda apesar de vendas ligeiramente superiores, margem bruta ajustada negativa, EBITDA ajustado mais desfavorável, forte consumo de caixa e a necessidade de abandonar progressivamente as vendas de automóveis novos nos Estados Unidos.
A segunda metade de 2026 será, por isso, particularmente importante. Polestar 4 SUV e Polestar 5 terão de começar a transformar uma gama mais ampla e uma rede quase 40% maior em crescimento efetivo de volume, receitas e margens. A redução da previsão anual mostra que a própria Polestar reconhece que essa transição deverá ser mais lenta do que inicialmente esperado.
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