
Artur Semedo - artur.semedo@publiracing.pt
9 de ago.



Artur Semedo - artur.semedo@publiracing.pt
8 de jun.










A fábrica da Stellantis em Mangualde ultrapassou a marca de dois milhões de veículos produzidos desde o início da atividade industrial, em 1964. O automóvel que assinalou o marco foi um Citroën ë-Berlingo Van 100% elétrico destinado a um cliente português, numa coincidência simbólica com a transformação tecnológica da unidade. Depois de ter alcançado em 2025 um recorde de 91.670 veículos, Mangualde trabalha atualmente em três turnos, produz 372 unidades por dia, emprega diretamente 900 pessoas e exporta 95% da produção.
Há números que ajudam a contar a dimensão de uma fábrica melhor do que qualquer declaração institucional. Em 2 de setembro de 2026, saiu da linha de produção de Mangualde o veículo número 2.000.000 desde que a unidade iniciou a produção, há mais de seis décadas. Tratou-se de um Citroën ë-Berlingo Van, 100% elétrico, de cor cinzenta e na edição especial que assinala os 30 anos do Berlingo, destinado a um cliente da região de Leiria.
A escolha não foi preparada apenas para exposição: segundo a Stellantis, o veículo tem efetivamente como destino um cliente nacional. O facto de ser elétrico acaba, contudo, por sintetizar particularmente bem a transformação da unidade portuguesa, que começou por produzir um dos automóveis mais elementares da sua época, o Citroën 2CV, e hoje monta na mesma localização veículos comerciais e de passageiros com motorizações de combustão e totalmente elétricas.
A história industrial de Mangualde começou em 1962, com a criação da Citroën Lusitânia, embora a produção automóvel só tenha arrancado em 1964. O primeiro modelo fabricado foi o Citroën 2CV AZL, iniciando uma ligação à marca francesa que atravessaria várias gerações de produtos.
Ao longo das décadas, passaram pelas linhas portuguesas modelos tão distintos como o Citroën DS, Méhari, AX e Saxo. Um dos episódios mais conhecidos aconteceu a 27 de julho de 1990, quando Mangualde produziu o último Citroën 2CV fabricado no mundo, encerrando uma história industrial iniciada em França em 1948.
Uma mudança decisiva aconteceu em 1998, com a entrada em produção do Citroën Berlingo e do Peugeot Partner. A unidade começou então a especializar-se progressivamente nos veículos comerciais ligeiros compactos e nas respetivas derivações de passageiros, atividade que continua a constituir o centro da produção atual.
Hoje, Mangualde trabalha para quatro marcas da Stellantis: produz Peugeot Partner e Rifter, Citroën Berlingo e Berlingo Van, Opel Combo e Combo Life e Fiat Doblò e Qubo, abrangendo motorizações térmicas e elétricas.

Indicador | Dados |
Fundação | 1962 |
Início da produção | 1964 |
Veículo 2.000.000 | 2 de setembro de 2026 |
Produção recorde em 2025 | 91.670 veículos |
Produção atual | 372 veículos/dia |
Turnos de produção | 3 |
Colaboradores diretos | 900 |
Empregos indiretos | Mais de 1.000 |
Produção destinada à exportação | 95% |
Peso na produção automóvel nacional em 2025 | 27% |
Marcas atualmente produzidas | Peugeot, Citroën, Opel e Fiat |
A marca dos dois milhões ganha maior significado quando observada à luz da atividade recente. Em 2025, Mangualde produziu 91.670 veículos, o maior volume anual da história da fábrica. Segundo os dados apresentados pela Stellantis, a unidade foi responsável por 27% de todos os veículos produzidos em Portugal nesse ano.
A fábrica funciona atualmente em três turnos e produz 372 veículos por dia, um ritmo que evidencia a importância que os comerciais ligeiros compactos continuam a ter dentro da estrutura industrial europeia do grupo. Apenas 5% da produção fica em Portugal: os restantes 95% são exportados, fazendo de Mangualde uma unidade essencialmente orientada para os mercados internacionais.
O impacto económico vai, por isso, além dos veículos que saem da fábrica. A unidade conta com 900 trabalhadores diretos e a Stellantis estima que a sua atividade sustente mais de 1000 empregos indiretos. Num setor industrial caracterizado por cadeias de fornecimento extensas, logística e serviços associados, esta dimensão ajuda a explicar a importância da fábrica para a Região Centro e para a indústria transformadora portuguesa.
Os dois milhões de veículos não devem, contudo, ser confundidos com dois milhões de unidades produzidas pela atual Stellantis. A fábrica atravessou diferentes períodos societários e industriais ao longo de mais de seis décadas, desde a Citroën Lusitânia, passando posteriormente pelo universo PSA e, desde a fusão entre PSA e FCA concluída em 2021, pela Stellantis.

A eletrificação representa a transformação mais recente da unidade. Mangualde tornou-se a primeira fábrica em Portugal a produzir em grande série automóveis de passageiros e comerciais ligeiros 100% elétricos, mantendo simultaneamente a produção de versões com motor de combustão.
Esta flexibilidade industrial é particularmente importante numa fase em que a procura por veículos elétricos evolui a ritmos diferentes entre mercados europeus. Em vez de uma unidade dedicada exclusivamente a uma tecnologia, a fábrica consegue produzir diferentes motorizações dentro das famílias de veículos que lhe estão atribuídas.
É neste contexto que o Citroën ë-Berlingo Van escolhido pelo próprio processo produtivo para atingir a unidade dois milhões acaba por ter um significado adicional. O primeiro automóvel fabricado em Mangualde, em 1964, foi um 2CV; o veículo que ultrapassa a barreira dos dois milhões, 62 anos depois, já dispensa completamente o motor de combustão.
A atividade industrial foi novamente alargada em junho com a integração da denominada Smart Compact Van, uma nova oferta da divisão Stellantis Pro One destinada ao segmento dos furgões compactos.
A estratégia abrange quatro modelos comercializados sob diferentes marcas: Citroën Berlingo FIRST, Fiat Doblò EASYPRO, Opel Combo START e Peugeot Partner ACTIVE. Mais do que novos veículos completamente distintos, trata-se de diferentes propostas construídas sobre a base industrial que já sustenta a produção dos comerciais ligeiros do grupo.
Mangualde conta também com um CustomFit Center, uma área destinada à transformação e personalização de veículos e frotas integrada no próprio processo industrial. Esta solução permite que determinadas adaptações sejam realizadas antes da entrega ao cliente, evitando que todo o processo de transformação tenha necessariamente de ocorrer posteriormente através de entidades externas.
Para a fábrica, estas operações representam uma tentativa de acrescentar valor à produção para além da montagem convencional, algo particularmente relevante numa indústria europeia onde os custos de produção e a concorrência de unidades instaladas noutras regiões colocam uma pressão crescente sobre as fábricas do continente.
A marca dos dois milhões chega numa altura particularmente sensível para a indústria automóvel europeia. Eletrificação, custos energéticos, novas exigências regulamentares, pressão sobre margens e crescimento dos fabricantes asiáticos estão a obrigar os grandes grupos a rever produtos, plataformas e capacidade industrial.
Neste contexto, a importância de Mangualde não reside apenas na sua história. Produzir 91.670 veículos num ano, representar 27% da produção nacional, exportar 95% do que fabrica e manter 900 postos de trabalho diretos são indicadores que colocam a unidade num plano relevante para a indústria automóvel portuguesa atual.
Também é significativo que uma fábrica inaugurada numa época em que a montagem automóvel tinha características profundamente diferentes tenha conseguido atravessar sucessivas transformações do setor. Mangualde passou pelo 2CV, acompanhou a massificação dos pequenos automóveis europeus, especializou-se nos comerciais ligeiros e chegou agora à produção elétrica em grande série.
O veículo número dois milhões é, portanto, sobretudo um marco acumulado de mais de seis décadas de atividade. Mas o dado que determinará a importância futura de Mangualde não será o número de automóveis que já produziu: será a capacidade de continuar a receber produto, investimento e volume num setor europeu que está a reorganizar rapidamente o seu mapa industrial.
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