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Porque é que o carro fica cheio de insetos ao final da tarde? A ciência explica um fenómeno comum nas estradas

  • Foto do escritor: Redação Europa
    Redação Europa
  • há 13 horas
  • 4 min de leitura


Quem conduz ao entardecer conhece bem a cena: após alguns quilómetros, o para-choques e o para-brisas ficam cobertos de pequenas manchas — restos de insetos que colidiram com a frente do carro. Um fenómeno aparentemente banal, mas que tem explicações científicas curiosas, envolvendo comportamento animal, física do ar em movimento e até características da pintura do automóvel.


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O encontro inevitável entre carros e insetos

Viajar de automóvel através de zonas naturais — campos, margens de rios ou áreas agrícolas — significa atravessar habitats onde milhões de insetos voadores estão ativos. A altas velocidades, o veículo funciona literalmente como uma “barreira móvel” no caminho desses insetos.


Segundo estudos de entomologia sobre impactos de insetos em veículos, fatores como velocidade, forma aerodinâmica do carro e fluxo de ar ao redor da carroçaria influenciam a probabilidade de colisão. A velocidades mais altas, os insetos têm menos capacidade de reagir ao fluxo de ar e acabam por atingir o para-brisas ou a grelha frontal.


Curiosamente, a própria aerodinâmica do carro também interfere. Alguns insetos acabam desviados pelo fluxo de ar que sobe pela frente do veículo, enquanto outros ficam “presos” nessa corrente e acabam por embater diretamente na superfície frontal.


Porque acontece sobretudo ao final da tarde

O período entre o final da tarde e o início da noite coincide com um dos momentos de maior atividade para muitas espécies de insetos voadores.


Existem dois fatores principais:

1. Insetos crepusculares e noturnos

Muitas espécies tornam-se mais ativas ao pôr-do-sol, quando a temperatura diminui e o risco de predadores é menor.

2. Atração pela luz

Insetos como mariposas, mosquitos e moscas possuem comportamento chamado fototaxia, ou seja, são atraídos por fontes de luz. Quando um automóvel circula ao entardecer ou à noite com os faróis ligados, pode funcionar como um “ímã luminoso”, semelhante ao que acontece com a luz de rua.


Na prática, o carro entra diretamente no caminho de insetos que estão a orientar o seu voo por fontes luminosas naturais — como a lua — e acabam desviados pelos faróis.


A cor do carro também pode influenciar

Curiosamente, algumas pesquisas científicas demonstraram que certas cores de carro podem atrair mais insetos do que outras.


Estudos sobre insetos aquáticos revelaram que superfícies escuras, vermelhas ou pretas refletem luz polarizada de forma semelhante à superfície da água, o que pode enganar determinados insetos que procuram locais para pousar ou depositar ovos.


Na prática, um carro escuro pode parecer, para alguns insetos, um “espelho de água” em movimento.


Existem épocas do ano mais propícias?

Sim — e a explicação é simples: o ciclo de vida dos insetos.

Durante o inverno, muitas espécies entram em fase de dormência ou vivem em estado larvar. Já na primavera, verão e início do outono, a maioria dos insetos adultos está ativa, reproduzindo-se e voando com mais frequência.


É por isso que viagens longas em estradas rurais durante o verão costumam deixar o para-brisas particularmente marcado.


Um fenómeno tão comum que virou indicador científico

Curiosamente, este fenómeno tornou-se também uma espécie de indicador ambiental.

Nas últimas décadas surgiu o chamado “fenómeno do para-brisas”, uma observação feita por muitos condutores: hoje em dia, os carros parecem ficar menos cobertos de insetos do que antigamente. Alguns estudos relacionam essa perceção com o declínio global de populações de insetos devido a fatores como pesticidas, alterações climáticas e mudanças nos ecossistemas.


Em alguns países europeus, projetos de ciência cidadã chegaram mesmo a medir o número de insetos que colidem com carros para avaliar tendências de biodiversidade.


É possível evitar?

Não totalmente — mas há algumas formas de reduzir o impacto:

  • Evitar conduzir com faróis fortes em zonas rurais ao crepúsculo, quando possível

  • Reduzir velocidade em áreas com grande densidade de insetos

  • Evitar rotas próximas de rios, lagoas ou zonas húmidas ao entardecer, onde há maior atividade

  • Utilizar ceras ou selantes na pintura, que facilitam a limpeza posterior

No entanto, na maioria dos casos, trata-se simplesmente de um efeito inevitável de atravessar ecossistemas ricos em vida.


Pequenos impactos que contam uma grande história

O curioso é que aquelas pequenas manchas no para-brisas contam uma história muito maior. Elas refletem o encontro entre tecnologia humana e a vida microscópica que domina os ecossistemas terrestres.


Durante décadas, limpar insetos do carro após uma viagem longa foi quase um ritual inevitável. Hoje, para muitos cientistas, a diminuição desse fenómeno pode ser muito mais preocupante do que incómoda — porque pode indicar que há menos insetos no ambiente do que havia no passado.


E talvez essa seja a maior curiosidade escondida na frente do carro ao final de uma viagem, como a que nossa equipa faz no seu habitual percurso entre Lisboa e a nossa Redação.


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