
Artur Semedo - artur.semedo@publiracing.pt
9 de ago.



Artur Semedo - artur.semedo@publiracing.pt
8 de jun.










A indústria automóvel do Reino Unido continua sob pressão. A produção de veículos recuou 11,6% em julho, para 63.655 unidades, penalizada sobretudo pela queda das exportações e pela calendarização antecipada de algumas paragens de verão nas fábricas. No meio dos números negativos, há um sinal importante de transformação: a produção de automóveis elétricos e híbridos cresceu pela primeira vez em 2026 e já representa mais de quatro em cada dez automóveis fabricados no país.
Os dados divulgados pela Society of Motor Manufacturers and Traders (SMMT) mostram um mês de julho particularmente difícil para a indústria britânica. No total, foram produzidos 63.655 veículos, menos 8.351 do que no mesmo mês de 2025, uma redução de 11,6%. O principal problema continua a estar nos mercados externos: as exportações diminuíram 15,9%, para 47.377 unidades, enquanto a produção destinada ao mercado interno avançou 3,8%, para 16.278 veículos. Ainda assim, cerca de 74,4% de toda a produção britânica de julho teve como destino outros países, demonstrando até que ponto a saúde desta indústria permanece dependente da procura internacional.
O desempenho dos automóveis de passageiros acompanhou a tendência geral, com a produção a recuar 10,6%, para 61.767 unidades. O crescimento de 9,3% dos veículos destinados aos compradores britânicos não foi suficiente para compensar a quebra de 15,8% nas exportações, que atingiu praticamente todos os principais destinos. Os envios para a União Europeia diminuíram 15,2%, enquanto para os Estados Unidos a redução foi ainda maior, de 17,7%. A Turquia recebeu menos 18,5%, o Japão menos 24,4% e a China registou a maior quebra, com uma descida de 36,9%.
O cenário foi ainda mais desfavorável nos veículos comerciais, cuja produção caiu 34,4%, para apenas 1.888 unidades. Neste caso, as entregas para clientes britânicos recuaram 49,6% e as exportações diminuíram 18,5%, reforçando a dimensão das dificuldades enfrentadas por esta área da indústria.
Produção total de veículos | Julho 2025 | Julho 2026 | Variação | Jan.-jul. 2025 | Jan.-jul. 2026 | Variação |
Produção | 72.006 | 63.655 | -11,6% | 489.238 | 449.634 | -8,1% |
Mercado interno | 15.687 | 16.278 | +3,8% | 121.401 | 108.035 | -11,0% |
Exportação | 56.319 | 47.377 | -15,9% | 367.837 | 341.599 | -7,1% |
Peso das exportações | 78,2% | 74,4% | — | 75,2% | 76,0% | — |
É precisamente na eletrificação que encontramos o principal indicador positivo de julho. A produção conjunta de automóveis 100% elétricos e híbridos aumentou 6,8%, para 25.678 unidades, naquele que foi o primeiro crescimento mensal deste tipo de veículos desde o início do ano. Mais importante do que a subida isolada é o peso que estas motorizações já assumem na indústria: mais de 40% dos automóveis produzidos no Reino Unido em julho eram elétricos ou híbridos, quando um ano antes a proporção rondava três em cada dez.
Esta evolução mostra uma indústria que está a transformar rapidamente o seu perfil produtivo, mesmo num período marcado por redução dos volumes globais. A questão passa agora por saber se o crescimento da produção eletrificada poderá ganhar dimensão suficiente para compensar as perdas associadas à mudança de modelos, ao encerramento de capacidade industrial e à pressão sobre as exportações.

Nos primeiros sete meses de 2026, as fábricas britânicas produziram 449.634 automóveis e veículos comerciais, menos 8,1% do que as 489.238 unidades registadas no período homólogo de 2025. Significa que, em apenas sete meses, saíram das linhas de produção britânicas aproximadamente 39.600 veículos a menos.
A SMMT atribui este desempenho a uma combinação de fatores que inclui mudanças de geração de vários modelos, o impacto do encerramento de uma fábrica no ano passado e a persistente incerteza em torno do comércio e do investimento. Apesar disso, a previsão independente citada pela associação aponta para uma relativa estabilização em 2026, estimando uma produção de cerca de 740 mil automóveis e veículos comerciais ligeiros no conjunto do ano, antes de uma possível recuperação a partir de 2027.
A médio prazo, a indústria ainda considera possível regressar à fasquia de um milhão de unidades anuais até ao final da década, mas esse cenário está condicionado à chegada de novos investimentos e, sobretudo, à competitividade do Reino Unido enquanto base de produção.
Entre os problemas identificados pela indústria está o custo da energia. Segundo a SMMT, mesmo considerando o futuro British Industrial Competitiveness Scheme, os custos energéticos industriais britânicos deverão permanecer cerca de 60% acima dos registados na Europa, uma diferença particularmente sensível numa indústria em processo de eletrificação e na qual a produção de baterias e veículos elétricos exige grandes quantidades de energia.
A associação também defende alterações ao ZEV Mandate, o sistema britânico que estabelece objetivos de vendas de veículos de emissões zero aos fabricantes. O Governo lançou recentemente uma revisão deste mecanismo e a SMMT considera que uma reformulação, acompanhada por medidas que estimulem efetivamente a procura de elétricos, poderá reduzir os custos suportados pelos fabricantes para cumprir as metas e melhorar a atratividade do país para novos investimentos.
Há ainda uma preocupação crescente em torno das relações comerciais com a União Europeia, principal destino da produção automóvel britânica. A SMMT alerta tanto para as propostas europeias associadas ao princípio “Made in the EU”, que poderão afetar a competitividade dos veículos fabricados no Reino Unido, como para o endurecimento das regras de origem previstas no acordo comercial entre Londres e Bruxelas. Estas novas exigências entram em vigor em janeiro e poderão aumentar a pressão sobre uma cadeia de fornecimento automóvel profundamente integrada entre os dois lados do Canal da Mancha.
O que está em causa ultrapassa os números de um único mês. A relação comercial automóvel entre o Reino Unido e a União Europeia movimenta, segundo a SMMT, cerca de 80 mil milhões de euros por ano, enquanto três quartos dos veículos produzidos nas fábricas britânicas continuam destinados à exportação. A queda de julho volta, por isso, a expor uma fragilidade estrutural: o Reino Unido está a acelerar a transformação das suas linhas de produção para elétricos e híbridos, mas essa transição acontece ao mesmo tempo que enfrenta custos industriais elevados, concorrência internacional crescente e novas incertezas comerciais. O aumento de 6,8% na produção de eletrificados é um sinal positivo, mas ainda insuficiente para inverter uma indústria que acumula uma quebra de 8,1% desde o início do ano.
Quer estar sempre atualizado? Siga o nosso canal no WhatsApp e receba as notícias no seu telemóvel
👉 Acreditamos que setores fortes dependem de pessoas bem informadas — de conteúdos que orientam, contextualizam e geram valor real para o mercado.
É essa visão que nossos leitores, profissionais e marcas apoiam. Ao se associar à Publiracing, você fortalece uma cultura de jornalismo independente, fidedigno e relevante. Uma cultura que valoriza o contexto acima da superficialidade, o rigor acima do sensacionalismo e a credibilidade acima da desinformação.
Quando a informação é produzida com responsabilidade, todo o ecossistema ganha: o público fica informado e toma decisões conscientes, as marcas comunicam com maior impacto e o setor se desenvolve.
Apoie o jornalismo de valor. Saiba mais clicando aqui ou vá para o link de apoio abaixo



























Comentários