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Teste: Alfa Romeo Tonale Q4 Intensa, consegue preservar aquilo que esperamos de um Alfa Romeo

há 3 minutos
18 min de leitura
Teste: Alfa Romeo Tonale Q4 Intensa, consegue preservar aquilo que esperamos de um Alfa Romeo

O Alfa Romeo Tonale Plug-In Hybrid Q4 Intensa junta 280 cv, tração integral elétrica, suspensão adaptativa e travões Brembo, numa apresentação que procura devolver emoção a um segmento dominado pela racionalidade. Neste ensaio interessava-nos menos saber se é rápido, confortável ou eficiente, e mais perceber se um SUV híbrido plug-in com cerca de 1,8 toneladas e responsabilidades familiares ainda consegue transmitir aquela relação entre automóvel e condutor que historicamente distinguiu a Alfa Romeo. Depois de o utilizarmos em cidade, estrada e autoestrada, a resposta não é absoluta, mas é suficientemente convincente para tornar este Tonale mais interessante do que a ficha técnica sugere.


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Há marcas que se avaliam através de critérios relativamente objetivos: espaço, qualidade, equipamento, consumos, desempenho, conforto e preço. Com a Alfa Romeo nunca foi assim tão simples, porque o emblema traz consigo uma expectativa adicional, construída ao longo de décadas em torno do desenho, da direção, do chassis e, sobretudo, da sensação de que o automóvel deve envolver quem o conduz. É uma responsabilidade difícil num momento em que o mercado empurrou praticamente todos os fabricantes para SUV maiores, mais pesados, eletrificados e cada vez mais dependentes de software — e talvez seja por isso que o Tonale seja um dos modelos mais importantes para compreender a Alfa Romeo atual.


O automóvel deste ensaio é o Tonale Plug-In Hybrid Q4 Intensa de 280 cv — uma identificação importante, porque a gama foi entretanto revista e o atual Plug-In Hybrid Q4 da Alfa Romeo Portugal já surge com 270 cv e dados de homologação diferentes. O Intensa que conduzimos pertence à configuração anterior, de 280 cv, que combina o 1.3 MultiAir turbo com um motor elétrico traseiro e caixa automática de seis velocidades — exatamente a especificação que a Alfa Romeo ainda documenta na página portuguesa dedicada à série Intensa. Não misturaremos, por isso, os números da geração atual de 270 cv com os do automóvel que passou pela nossa garagem. Esta alteração técnica foi necessária para que as motorizações do SUV italiano cumprissem as mais recentes e rigorosas normas de emissões europeias (Euro 6E-bis). Para reduzir as emissões de dióxido de carbono (CO₂), a marca procedeu a um ajuste eletrónico e mecânico, fazendo com que o motor turbo a gasolina de 1.3 litros (que antes debitava 180 cv) visse a sua potência ligeiramente reduzida


Teste: Alfa Romeo Tonale Q4 Intensa, consegue preservar aquilo que esperamos de um Alfa Romeo
Teste: Alfa Romeo Tonale Q4 Intensa, consegue preservar aquilo que esperamos de um Alfa Romeo

Um SUV que não precisa do emblema para ser reconhecido como Alfa Romeo

Quatro anos depois da chegada do Tonale, o desenho continua a ser um dos seus melhores argumentos — não porque procure ser ostensivamente agressivo, mas porque consegue preservar identidade num segmento onde proporções, aerodinâmica, requisitos de segurança e necessidade de maximizar o espaço interior tornaram muitos produtos visualmente semelhantes. O tradicional Scudetto, a assinatura luminosa 3+3, os volumes relativamente baixos para um SUV e a forma como esta se prolonga horizontalmente na traseira permitem reconhecer imediatamente um Alfa Romeo, sem recorrer a soluções artificiais ou a uma profusão de elementos decorativos.


Com aproximadamente 4,53 metros de comprimento, 1,84 m de largura, 1,61 m de altura e 2,64 m entre eixos, o Tonale também não cedeu à corrida ao gigantismo que tomou conta de grande parte do mercado. As proporções são compactas o suficiente para manter alguma funcionalidade urbana, mas há espaço bastante para responder às exigências de um automóvel familiar, o que o coloca diretamente no território dos SUV compactos premium eletrificados.


Teste: Alfa Romeo Tonale Q4 Intensa, consegue preservar aquilo que esperamos de um Alfa Romeo

No Intensa, essa base recebe uma apresentação bastante mais elaborada. As jantes de liga leve de 20 polegadas com corte diamantado e detalhes dourados, as pinças Brembo em preto com assinatura Alfa Romeo dourada, o Scudetto escurecido, as superfícies inferiores em preto brilhante combinadas com elementos em preto mate, os vidros traseiros escurecidos e as duas ponteiras de escape cromadas específicas do Plug-In Q4 criam uma configuração visualmente forte sem transformar o Tonale numa caricatura desportiva. A Alfa poderia facilmente ter exagerado na utilização do dourado, mas os elementos aparecem em quantidade suficiente para identificar o Intensa sem dominar o desenho.


É essa coerência que mais apreciámos. O Tonale não tenta parecer um automóvel de competição nem recorre a uma sucessão de apêndices para justificar a designação Intensa; trabalha sobretudo materiais, acabamentos e pequenos contrastes para criar identidade própria. Num mercado em que algumas versões especiais se resumem praticamente a jantes diferentes, emblemas e uma combinação exclusiva de cores, aqui há pelo menos uma tentativa clara de criar uma atmosfera específica.



Um interior que continua a colocar o condutor no centro

Dentro do automóvel é que o tratamento Intensa produz a diferença mais evidente. Os bancos em Alcantara, os pespontos contrastantes em castanho, os logótipos Alfa Romeo bordados nos apoios de cabeça, a identificação Intensa, o painel de instrumentos também revestido em Alcantara, os elementos em bronze, as soleiras em alumínio e os pedais metálicos elevam significativamente a apresentação do habitáculo.


Gostámos particularmente da posição de condução: naturalmente mais elevada do que num Giulia, mas sem aquela sensação de estarmos sentados sobre o automóvel, comum a alguns SUV. Os bancos dianteiros, aquecidos e com regulação elétrica em oito vias, oferecem um bom compromisso entre apoio lateral e conforto em viagens prolongadas, e a memória para o condutor e a regulação lombar elétrica completam um conjunto à altura desta versão.


Depois há aquelas grandes patilhas em alumínio fixas à coluna de direção. Poderíamos tratá-las como um detalhe quase supérfluo num híbrido plug-in com caixa automática de seis velocidades, mas representam algo que valorizamos num Alfa: continuam ali, grandes, metálicas, frias ao toque, exatamente onde esperamos encontrá-las quando aumentamos o ritmo. Numa indústria em que os comandos físicos estão a desaparecer para dentro de menus e superfícies táteis, é reconfortante encontrar elementos que ainda estabelecem uma ligação mecânica e visual com a condução.


A instrumentação digital Cannocchiale de 12,3 polegadas mantém a tradicional inspiração nos dois grandes mostradores Alfa Romeo e trabalha em conjunto com o sistema central Alfa Connect de 10,25 polegadas, com navegação, Apple CarPlay e Android Auto sem fios.


Há ainda carregamento de smartphone por indução com arrefecimento, climatização automática de duas zonas, câmara de 360 graus, sensores em redor do automóvel e, no Intensa, sistema de áudio Harman Kardon de 470 W com 14 altifalantes.



Não é o habitáculo com a maior superfície digital do segmento, e isso não nos parece uma desvantagem. Há tecnologia suficiente, mas o Tonale continua a parecer um automóvel desenhado em torno da posição de condução e sua envolvencia, e não um conjunto de ecrãs ao qual depois se acrescentaram volante e pedais. Mantém ainda comandos físicos para as funções mais utilizadas, o que continua a ser mais rápido e intuitivo em andamento do que navegar por menus.


Em qualidade, somos um pouco mais exigentes. A apresentação do Intensa é muito boa, os revestimentos específicos melhoram substancialmente a perceção de valor e a montagem transmite solidez, mas há materiais mais rígidos nas zonas inferiores e alguns componentes cuja execução não atinge o nível dos melhores interiores premium atuais. Isto não faz do Tonale um automóvel mal construído; significa apenas que, numa versão de topo comparada com BMW, Mercedes-Benz, Audi e propostas generalistas cada vez mais sofisticadas, há áreas onde gostaríamos de sentir ainda mais riqueza material.



Espaço para responder às exigências familiares

O entre-eixos de 2,64 metros permite que quatro adultos viajem confortavelmente e, embora o Tonale não procure estabelecer referências absolutas de habitabilidade, o aproveitamento do espaço é coerente com as dimensões exteriores. Atrás há espaço adequado para pernas e cabeça, o banco é confortável e a presença de saídas de climatização, apoio de braços central e a possibilidade de transportar objetos compridos através da abertura central tornam o conjunto funcional numa utilização familiar.


É na bagageira que a versão Plug-In Hybrid paga de forma mais evidente a fatura da eletrificação. O Q4 oferece 385 litros — suficiente para o dia a dia e para uma viagem familiar sem grandes limitações, mas apenas mediano para um SUV desta dimensão. Com os bancos traseiros rebatidos, a capacidade sobe para cerca de 1.430 litros. Aqui não há engenharia capaz de eliminar por completo o compromisso: bateria, eletrónica de potência e motor elétrico traseiro precisam de espaço, e o resultado é uma bagageira menor do que a disponível noutras motorizações do Tonale.


É um dos pontos a considerar antes da compra, sobretudo para quem escolhe um SUV à espera de uma enorme capacidade de carga. O Tonale Q4 oferece espaço familiar suficiente, mas não é um campeão de bagageira, nem esconde as consequências práticas da sua arquitetura híbrida plug-in.



Uma plataforma que não nasceu no Giulia, mas recebeu uma afinação própria

Compreender a arquitetura ajuda a explicar boa parte do comportamento que encontrámos. O Tonale utiliza uma evolução da plataforma Small Wide do antigo universo FCA, profundamente adaptada para receber eletrificação e tração integral elétrica — e não a arquitetura Giorgio dos Giulia e Stelvio. Não estamos, por isso, perante um pequeno Stelvio eletrificado, nem faria sentido avaliá-lo como tal.


Isso obrigou os engenheiros da Alfa Romeo a procurar a personalidade do Tonale através da geometria, da direção, do amortecimento, dos travões e da calibração eletrónica. Um dos elementos técnicos mais interessantes é a suspensão independente do tipo MacPherson nos dois eixos, acompanhada, nesta versão Intensa, pela Suspensão Ativa de Dupla Fase — controlada eletronicamente e capaz de alterar a resposta dos amortecedores consoante a configuração escolhida. A Alfa identifica esta suspensão como equipamento de série do Intensa.


É uma solução importante, porque este Tonale tem de resolver um problema difícil: oferecer conforto suficiente para o uso diário com jantes de 20 polegadas e, simultaneamente, controlar a massa de um híbrido plug-in quando o condutor decide explorar os 280 cv numa estrada mais exigente. Não consegue eliminar a física, mas consegue administrá-la bastante bem.



280 cv, mas a arquitetura Q4 é mais interessante do que o número

Debaixo do capot encontramos o conhecido 1.3 MultiAir turbo de quatro cilindros, com 180 cv, associado a uma caixa automática de seis velocidades e responsável exclusivamente por movimentar o eixo dianteiro. No eixo traseiro existe um motor elétrico de 90 kW, equivalente a 122 cv, e 250 Nm, alimentado pela bateria de iões de lítio de 15,5 kWh. A combinação permite atingir 280 cv de potência máxima do sistema.


A parte mais interessante está na forma como a tração integral é conseguida. Não existe um veio de transmissão mecânico a ligar os dois eixos: o motor de combustão movimenta as rodas dianteiras e o motor elétrico fica responsável pelas traseiras. A Alfa descreve esta configuração como e-AWD/Q4 e salienta que o eixo posterior pode aplicar de imediato o binário disponibilizado pelo motor elétrico assim que o acelerador é solicitado.


Esta arquitetura traz vantagens evidentes para um PHEV, porque permite criar tração integral sem uma ligação mecânica tradicional entre os eixos e, ao mesmo tempo, utilizar a resposta instantânea do motor elétrico para melhorar a motricidade. O Tonale acelera dos 0 aos 100 km/h em 6,2 segundos, chega aos 206 km/h e consegue atingir 135 km/h exclusivamente em modo elétrico.


Olhando apenas para os números, são prestações fortes, mas não extraordinárias para o mercado eletrificado atual — depois de conduzir elétricos familiares capazes de chegar aos 100 km/h em quatro ou cinco segundos, 6,2 segundos deixaram de impressionar. A diferença está em como o Tonale utiliza essa potência: a sua proposta dinâmica continua mais preocupada com direção, comportamento e resposta ao condutor do que em produzir uma aceleração impressionante em linha reta.


Na estrada: ainda existe Alfa Romeo aqui dentro

É aqui que o ensaio se torna mais interessante, porque não queríamos descobrir apenas se o Tonale era rápido, mas se continuava a comunicar alguma coisa a quem o conduz. E a conclusão é que sim: existe personalidade Alfa Romeo neste chassis, ainda que não se deva confundir com a experiência muito mais pura de um Giulia.


A direção é rápida e precisa, dando ao Tonale uma reação inicial ao volante mais imediata do que a maioria dos SUV familiares. Não é particularmente rica em informação transmitida pelas mãos — um ponto onde gostaríamos de sentir ainda mais Alfa Romeo —, mas a rapidez da relação ajuda a diminuir subjetivamente as dimensões do automóvel e deixa a frente bastante disponível quando começamos a encadear curvas.


A suspensão adaptativa também faz diferença. Em utilização normal há firmeza, sobretudo percetível com as jantes de 20 polegadas, mas sem tornar o Tonale desconfortável. Quando aumentamos o ritmo, percebemos porque essa afinação faz sentido: a carroçaria permanece controlada, as transferências de massa são bem geridas e o automóvel resiste à tendência de transformar o peso do sistema híbrido numa sensação permanente de inércia. Não é um SUV leve, mas gere bastante bem o próprio peso.


O eixo traseiro elétrico também contribui para essa sensação. Ao acelerar à saída de uma curva, a disponibilidade imediata de binário atrás melhora a motricidade e ajuda a equilibrar uma arquitetura que, com 280 cv aplicados apenas ao eixo dianteiro, teria necessariamente outro comportamento. Isto não transforma o Tonale num automóvel de tração traseira nem o faz rodar sobre si próprio como um Giulia; significa apenas que a gestão Q4 distribui o esforço entre os dois eixos de forma a beneficiar tanto a segurança como a eficácia.


Quando conduzimos mais depressa, porém, a massa acaba inevitavelmente por aparecer. Mudanças rápidas de apoio, travagens fortes e curvas mais fechadas lembram-nos que transportamos motor de combustão, caixa automática, motor elétrico, bateria e todo o hardware necessário para combinar dois sistemas de propulsão. É aqui que encontramos a fronteira entre este Tonale e os Alfa mais orientados para o puro prazer de condução: há competência, precisão e envolvimento acima da média do segmento, mas não a mesma leveza de movimentos.


Vale a pena dizê-lo, porque elogiar o Tonale não exige transformá-lo naquilo que não é. O mérito está em conseguir preservar algum carácter apesar de tudo o que um SUV híbrido plug-in moderno é obrigado a transportar.



O Alfa D.N.A. continua a fazer sentido

O conhecido seletor Alfa D.N.A. adapta a resposta do conjunto híbrido às diferentes situações e não funciona apenas como elemento decorativo. Em Dynamic, acelerador, transmissão, assistência e gestão do sistema Q4 tornam-se mais reativos e a suspensão pode assumir uma resposta mais firme; é a configuração que melhor revela o lado dinâmico do Tonale e onde sentimos mais claramente a contribuição imediata do motor traseiro. Em Natural encontramos o compromisso que utilizámos durante grande parte do ensaio, porque a gestão entre combustão e eletricidade se torna mais discreta e adequada ao quotidiano; já o Advanced Efficiency procura maximizar a eficiência e a utilização elétrica.


Gostámos, sobretudo, de haver uma diferença percetível entre os modos. Demasiados automóveis atuais oferecem uma longa lista de configurações que alteram pouco mais do que o peso artificial da direção e a sensibilidade inicial do acelerador; aqui, a combinação entre propulsão híbrida, eixo traseiro elétrico, caixa e amortecimento cria personalidades suficientemente distintas para justificar o uso do seletor.


Brembo à frente e uma travagem à altura do desempenho

A Alfa também tratou a travagem com a seriedade necessária para um SUV desta potência e massa. O Tonale utiliza o Integrated Brake System, combinando a gestão eletrónica da travagem com o controlo de estabilidade, e à frente encontramos discos ventilados e pinças fixas Brembo de quatro êmbolos, visualmente destacadas no Intensa pelo acabamento preto e lettering dourado.


Mais importante do que a estética é o comportamento. A capacidade de desaceleração é forte, o pedal permite dosear a travagem com confiança e a transição entre recuperação energética e travagem por fricção está suficientemente bem trabalhada para não dominar a experiência. Em híbridos e elétricos continuamos a encontrar automóveis em que a primeira parte do curso do pedal parece pouco natural, devido à necessidade de misturar regeneração e travão convencional; no Tonale, essa integração não compromete a confiança quando começamos a explorar o chassis.



Dois consumos contam melhor a história deste PHEV do que um único número

A bateria tem 15,5 kWh e 306 V, e o carregador de bordo admite até 7,4 kW, permitindo uma carga completa em menos de duas horas e meia nas condições adequadas. Na homologação original desta configuração, a Alfa anunciava mais de 80 km de autonomia elétrica em utilização urbana e um consumo WLTP de aproximadamente 1,14 l/100 km, números que precisam de ser interpretados dentro da metodologia específica utilizada para homologar híbridos plug-in.


É por isso que, neste ensaio, preferimos apresentar aquilo que efetivamente encontrámos na estrada. Enquanto a bateria tinha energia disponível, registámos 1,9 l/100 km; depois de consumida a carga inicial, em percursos mais longos, a média subiu para 5,9 l/100 km. São dois números muito mais esclarecedores em conjunto do que qualquer tentativa de resumir a utilização deste PHEV numa única média.


Os 1,9 l/100 km demonstram o potencial do sistema quando o automóvel é utilizado de acordo com a lógica de um híbrido plug-in, ou seja, carregado regularmente e com uma parcela importante das deslocações realizada através da energia retirada da rede. Naturalmente, esses 1,9 litros não representam toda a energia consumida pelo automóvel, porque uma parte substancial foi fornecida pela bateria; ignorar isso seria tão incorreto como comparar diretamente esse valor com o consumo de um híbrido convencional.


Mais reveladores para quem faz viagens longas são, por isso, os 5,9 l/100 km obtidos depois de esgotada a energia inicialmente disponível na bateria. Considerando os 280 cv, a tração integral, o peso do conjunto híbrido e as dimensões do Tonale, trata-se de um resultado bastante interessante: demonstra que o automóvel não se transforma num SUV excessivamente gastador quando termina a fase mais favorável de utilização elétrica.


Há ainda uma mudança importante na forma como passámos a recolher estes dados na Publiracing. A nossa configuração de ensaio procura agora reunir aproximadamente 600 quilómetros distribuídos por três cenários: cerca de 200 km em estrada nacional ou IP, 200 km em autoestrada e outros 200 km em ambiente urbano. Desta forma, cidade, estrada e autoestrada entram na avaliação em proporções comparáveis e evitamos que uma média seja determinada quase exclusivamente por um único tipo de percurso, trazendo com rigor um cenário real de utilização para cada carro que testamos.


No caso de um PHEV, esta metodologia torna-se ainda mais importante, porque cada ambiente explora o sistema de forma diferente. A cidade favorece a propulsão elétrica e a recuperação de energia, a estrada nacional permite combinar os dois motores em velocidades moderadas e a autoestrada expõe o comportamento do automóvel quando o motor térmico passa a assumir uma parcela muito maior do esforço. Por isso, a conclusão que retiramos do Tonale é simples: carregado regularmente, apresenta consumos de gasolina muito baixos; numa viagem prolongada, depois de esgotada a carga inicial, os 5,9 l/100 km mostram que continua a ser razoavelmente eficiente.


É também por isso que continuamos a defender que um híbrido plug-in só deve ser comprado por quem pode carregá-lo com regularidade. Caso contrário, transporta-se permanentemente bateria, motor elétrico e eletrónica de potência sem explorar plenamente a vantagem energética que justificou a sua presença.



Segurança: cinco estrelas, mas é fundamental dizer de que ano

O Tonale recebeu cinco estrelas Euro NCAP em 2022, com 83% na proteção dos ocupantes adultos, 85% na proteção das crianças, 67% na proteção dos utilizadores vulneráveis da estrada e 85% em Safety Assist. É uma classificação positiva, mas fazemos questão de associar o ano à pontuação, porque os protocolos Euro NCAP evoluíram substancialmente e uma classificação máxima de 2022 não é diretamente comparável às atribuídas segundo os protocolos mais recentes.


Na proteção estrutural, o habitáculo permaneceu estável no ensaio frontal descentrado e a proteção foi globalmente boa ou adequada, enquanto nos impactos laterais o Tonale conseguiu a pontuação máxima. O Euro NCAP identificou, contudo, o automóvel como um parceiro de impacto agressivo numa colisão frontal e chamou a atenção para a ausência de airbag central dianteiro, solução que já começava a tornar-se comum quando o Tonale foi avaliado.


O equipamento ativo do Intensa é bastante completo e inclui condução assistida de nível 2, Intelligent Adaptive Cruise Control, monitorização do ângulo morto, deteção de trajetória cruzada traseira, assistência à manutenção na faixa, reconhecimento e assistência de velocidade, monitorização da atenção do condutor, travagem autónoma de emergência, Magic Parking, sensores de estacionamento de 360 graus e câmara de visão periférica. A Alfa lista todos estes sistemas entre o equipamento desta versão.


Em segurança passiva, encontramos seis airbags — frontais para condutor e passageiro, laterais dianteiros e cortinas laterais —, juntamente com fixações para cadeiras infantis e possibilidade de desativação do airbag do passageiro. O Euro NCAP confirmou que os sistemas de retenção infantil previstos podiam ser corretamente instalados e acomodados.


A leitura é, por isso, equilibrada: o Tonale apresentou um desempenho de segurança muito bom segundo o protocolo em vigor quando foi lançado e dispõe de uma boa cobertura ADAS, mas o projeto já deixa perceber diferenças face aos automóveis mais recentes, sobretudo pela ausência de airbag central. As cinco estrelas são reais; o contexto de 2022 deve acompanhá-las sempre.



Um segmento onde ser apenas competente deixou de chegar

Talvez o maior adversário do Tonale não seja um modelo específico, mas a evolução brutalmente rápida do próprio mercado. Entre SUV premium compactos eletrificados encontramos alternativas como BMW X1 PHEV, Mercedes-Benz GLA híbrido plug-in e Audi Q3 e-hybrid, enquanto várias marcas tradicionalmente generalistas e novos fabricantes asiáticos oferecem hoje níveis de equipamento, autonomia elétrica e qualidade interior que comprimiram consideravelmente a diferença para o universo premium.


O Intensa respondia procurando acrescentar personalidade e equipamento. Quando a série foi apresentada em Portugal, a Alfa anunciou preços desde 55.400 euros — mas esse era o valor de entrada da série Intensa, e não deve ser tomado automaticamente como o preço do Q4 PHEV de 280 cv que conduzimos. A distinção tornou-se ainda mais relevante porque a gama portuguesa atual já apresenta o Tonale Plug-In Hybrid revisto, homologado em outubro de 2025, com valores de consumo, autonomia e potência diferentes.


É neste contexto competitivo que o Tonale precisa de oferecer algo além de equipamento. Há concorrentes mais espaçosos, outros com interiores mais sofisticados e alguns com sistemas eletrificados mais recentes — vencer apenas pela comparação de números seria, por isso, uma batalha difícil. O argumento da Alfa Romeo tem de continuar a ser o carácter.



RESUMO FINAL: não é um Giulia elevado — e ainda bem que não tenta fingir que é

Depois de convivermos com o Tonale Q4 Intensa, a conclusão mais importante é talvez também a mais simples: este não é o Alfa Romeo que escolheríamos para explicar a alguém aquilo que historicamente tornou a marca especial, mas é um dos SUV híbridos plug-in que mais claramente tenta não esquecer a pessoa sentada atrás do volante. A distinção importa, porque seria fácil cair em dois extremos igualmente errados: dizer que o Tonale preserva intacta a experiência de um Giulia, ou, pelo lado oposto, descartá-lo apenas por ser um SUV eletrificado.


Gostámos da rapidez da direção, da forma como a suspensão adaptativa controla a carroçaria, da resposta do eixo traseiro elétrico quando procurámos motricidade à saída das curvas e da maneira como os travões Brembo lidam com um automóvel pesado sem perder a naturalidade do pedal. Gostámos também da utilização quotidiana: conforto suficiente para viajar, espaço para quatro adultos, tecnologia sem transformar todas as funções numa sucessão de menus e um sistema híbrido com duas faces bastante convincentes — 1,9 l/100 km enquanto havia energia na bateria, 5,9 l/100 km depois de esgotada a carga inicial.


O Intensa parece-nos também uma execução particularmente feliz do Tonale. Alcantara, costuras, detalhes em bronze, jantes de 20 polegadas, pinças Brembo específicas e as enormes patilhas de alumínio criam personalidade sem recorrer a excessos, embora continuemos a considerar que alguns materiais interiores poderiam ser mais nobres face ao posicionamento premium. A bagageira de 385 litros revela igualmente o preço prático da arquitetura PHEV, tal como a massa recorda, numa estrada exigente, que eletrificação e tração integral não chegam sem consequências.


É quando deixamos de procurar a perfeição que entendemos melhor este Alfa. O Tonale tinha de ser SUV, familiar, conectado, seguro, eletrificado, eficiente e confortável o suficiente para responder ao mercado atual; simultaneamente, os engenheiros tinham de preservar alguma da personalidade que torna o emblema relevante. Não conseguiram vencer por completo a física, nem reproduzir a leveza e a comunicação de um Giulia, mas evitaram que o resultado fosse apenas mais um SUV PHEV competente e anónimo.


É aí que está o argumento mais forte deste Tonale. Colocamos o D.N.A. em Dynamic, encontramos uma estrada com curvas, seguramos o volante com aquelas grandes patilhas metálicas atrás e sentimos o eixo traseiro elétrico participar na saída de curva; depois regressamos à autoestrada, selecionamos uma configuração mais tranquila e percebemos que podemos viajar com conforto e consumos perfeitamente razoáveis. O Tonale Q4 Intensa vive entre esses dois mundos e, embora não seja o Alfa mais puro, ainda consegue lembrar-nos de que conduzir pode ser mais do que apenas chegar ao destino.


Artur Semedo

Editor de Veículos | Jornalista Especializado em Produto e Engenharia Automóvel


Com mais de 15 anos de experiência em ensaios a automóveis em Portugal e no Brasil, alia a prática de centenas de testes à formação técnica da AEA – Associação Brasileira de Engenharia Automotiva, através de diversos cursos e atualizações em áreas como combustíveis, motores de combustão, baterias, sistemas híbridos e veículos elétricos, proporcionando uma análise aprofundada do comportamento, engenharia e tecnologia de cada automóvel.


Ficha técnica — Alfa Romeo Tonale Plug-In Hybrid Q4 Intensa 280 CV

Característica

Tonale Q4 Intensa

Motorização

Híbrido plug-in gasolina/elétrico

Motor térmico

1.3 MultiAir Turbo, 4 cilindros

Cilindrada

1.332 cm³

Potência motor térmico

180 cv

Motor elétrico

Eixo traseiro

Potência elétrica máxima

90 kW / 122 cv

Binário motor elétrico

250 Nm

Potência máxima do sistema

280 cv / 206 kW

Tração

Q4 e-AWD, dianteira térmica + traseira elétrica

Caixa

Automática de 6 velocidades

Bateria

Iões de lítio, 15,5 kWh / 306 V

Carregamento AC máximo

7,4 kW

Carga completa

Menos de 2h30 nas condições adequadas

Autonomia elétrica homologada da configuração

Cerca de 80 km em ciclo urbano

0–100 km/h

6,2 s

Velocidade máxima

206 km/h

Velocidade máxima em elétrico

135 km/h

Consumo Publiracing — com energia na bateria

1,9 l/100 km

Consumo Publiracing — após carga inicial consumida

5,9 l/100 km

Protocolo Publiracing

200 km estrada/IP + 200 km autoestrada + 200 km urbano

Comprimento

4.528 mm

Largura

1.841 mm

Altura

aprox. 1.614 mm

Distância entre eixos

2.636 mm

Peso em ordem de marcha

aprox. 1.835 kg

Bagageira

385 litros

Bagageira com bancos rebatidos

aprox. 1.430 litros

Suspensão dianteira

MacPherson independente

Suspensão traseira

MacPherson independente

Amortecimento Intensa

Suspensão Ativa de Dupla Fase, controlo eletrónico

Travões dianteiros

Discos ventilados, pinças fixas Brembo de 4 êmbolos

Travões traseiros

Discos

Jantes Intensa

20", corte diamantado e detalhes dourados

Instrumentação

Cannocchiale digital 12,3"

Multimédia

Alfa Connect 10,25"

Sistema áudio

Harman Kardon, 470 W, 14 altifalantes

Euro NCAP

5 estrelas — protocolo 2022

Proteção adultos

83%

Proteção crianças

85%

Utilizadores vulneráveis

67%

Safety Assist

85%

Airbags

6

ADAS principais

AEB, ACC inteligente, assistência à faixa, ISA, deteção de ângulo morto, alerta de tráfego cruzado traseiro, monitorização do condutor, condução assistida Nível 2, câmara 360º e sensores 360º


Pontos-Chave para Avaliação de Veículos

  1. Motorização e Desempenho

    Potência, binário, aceleração, resposta em diferentes cenários (cidade, estrada, ultrapassagens).

  2. Consumo / Eficiência Energética

    Média de consumo (l/100 km) ou eficiência elétrica (kWh/100 km).

  3. Autonomia

    Fundamental em elétricos e híbridos plug-in, mas também importante em combustão (tamanho do tanque, consumo real).

  4. Conforto e Ergonomia

    Qualidade dos bancos, espaço interno, nível de ruído, suspensão, facilidade de acesso e posição de condução.

  5. Tecnologia e Conectividade

    Infotainment, integração com smartphone, atualizações OTA, assistentes virtuais, personalização digital.

  6. Segurança

    Sistemas ADAS (travagem automática, ACC, manutenção de faixa, monitorização de fadiga), número de airbags, estrutura e testes de colisão.

  7. Travagem e Estabilidade

    Qualidade dos travões, distância de travagem, comportamento em curvas, controle de tração e estabilidade.

  8. Espaço e Funcionalidade

    Porta-malas, espaço para ocupantes, modularidade dos bancos, porta-objetos e usabilidade no dia a dia.

  9. Design e Acabamento

    Estilo exterior, qualidade de materiais no interior, atenção ao detalhe e percepção de valor.

  10. Custo-Benefício

    Preço em relação ao que oferece, garantia, custo de manutenção, valor de revenda.


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