
Artur Semedo - artur.semedo@publiracing.pt
há 4 dias



Artur Semedo - artur.semedo@publiracing.pt
8 de jun.










Nova aplicação Safety Coach analisa travagens, acelerações e comportamento em curva para atribuir uma pontuação individual ao condutor. A tecnologia estreia-se na Suécia e Noruega e abre caminho a seguros baseados nos dados reais de condução, levantando também questões sobre privacidade e sobre a crescente utilização da telemática no automóvel.
A Volvo Cars vai começar a disponibilizar este mês a Safety Coach, uma nova aplicação destinada a analisar a forma como cada automobilista conduz e a apresentar recomendações em tempo real através do sistema de infoentretenimento e da aplicação móvel da marca. Mais do que uma ferramenta de segurança, o sistema poderá também ter consequências financeiras: os condutores que aceitarem partilhar os seus dados com seguradoras poderão beneficiar de prémios calculados em função do comportamento efetivamente registado ao volante.
A aplicação começa por chegar à Suécia e Noruega, estando prevista posteriormente a expansão para os Estados Unidos e outros mercados europeus. Numa primeira fase, será compatível com grande parte dos Volvo equipados com sistema de infoentretenimento baseado em Android da Google a partir do ano-modelo 2020.
O Safety Coach recolhe indicadores relacionados com a condução quotidiana, incluindo travagens, acelerações e comportamento em curva, utilizando essa informação para criar uma pontuação dinâmica e individual.
O objetivo é identificar comportamentos que possam aumentar o risco e incentivar uma condução mais previsível. A Volvo sustenta a abordagem nos dados e conhecimentos de segurança acumulados durante décadas de análise de acidentes e situações reais de circulação.
“A nossa investigação mostra que muitos acidentes envolvem alguma forma de surpresa. O que ajuda a evitá-la é a previsibilidade”, explica Mikael Ljung Aust, especialista em comportamento do condutor na Volvo Cars.
Segundo o responsável, permanecer dentro das velocidades esperadas e evitar manobras abruptas facilita a antecipação das ações por parte dos restantes utilizadores da estrada e pode reduzir o risco de colisão.
É na ligação entre a aplicação e o setor segurador que o Safety Coach ganha outra dimensão. Na Suécia e Noruega, os clientes poderão optar por partilhar os dados recolhidos com a Volvia, seguradora associada à iniciativa, tornando possível a aplicação de condições de seguro baseadas na utilização e no comportamento do condutor.
Trata-se do conceito normalmente conhecido como usage-based insurance, no qual o risco deixa de ser calculado apenas através de parâmetros tradicionais e passa também a considerar dados telemáticos recolhidos durante a utilização efetiva do automóvel.
Na prática, um comportamento considerado mais seguro poderá traduzir-se em benefícios personalizados no seguro. A Volvo refere que pretende levar propostas semelhantes a outros mercados à medida que o Safety Coach for sendo internacionalizado, embora ainda não tenha indicado quando a aplicação chegará a Portugal nem quais serão as condições aplicáveis em cada país.
A aplicação resulta de uma colaboração entre a Volvo Cars e a Cambridge Mobile Telematics (CMT), empresa especializada em telemática e inteligência artificial aplicada à mobilidade. É um algoritmo da CMT que serve de base ao cálculo da pontuação atribuída pelo Safety Coach.
William V. Powers, cofundador e CEO da empresa, afirma que os dados obtidos nos seus programas de condução segura mostram reduções significativas na frequência de episódios de excesso de velocidade e travagens bruscas quando os automobilistas participam ativamente neste tipo de sistemas.
A tecnologia insere-se numa tendência mais ampla da indústria: o automóvel conectado permite que o risco individual seja progressivamente medido através da condução real, em vez de depender exclusivamente de fatores estatísticos como idade, localização, histórico de sinistros ou características do veículo.
A utilização de informação detalhada sobre a condução coloca inevitavelmente a privacidade no centro da discussão. Segundo a Volvo, a adesão ao Safety Coach é opcional e o condutor mantém controlo sobre a utilização dos seus dados.
Existem, além disso, dois níveis distintos de consentimento. Primeiro, o utilizador decide se pretende utilizar o Safety Coach. Depois, terá de autorizar separadamente a partilha das informações com seguradoras associadas caso pretenda beneficiar de um seguro baseado na utilização.
Esta separação será particularmente relevante na expansão europeia do serviço, onde o tratamento e partilha de dados pessoais estão sujeitos a regras específicas. A relação entre telemática, segurança e seguros poderá tornar-se uma das áreas mais sensíveis à medida que os veículos conectados passam a recolher quantidades cada vez maiores de informação sobre os seus utilizadores.
A primeira fase abrange automóveis com sistema de infoentretenimento Android da Google a partir do ano-modelo 2020. A lista anunciada inclui XC40, EX40, EC40, S60, V60, XC60, EX60, XC90, V90, EX90 e ES90, embora a disponibilidade possa variar consoante o modelo e o mercado.
O Safety Coach mostra, assim, como o software começa a assumir funções que ultrapassam o próprio funcionamento do automóvel. A mesma informação utilizada para aconselhar o condutor e tentar reduzir comportamentos de risco poderá servir para determinar quanto paga pelo seguro.
É uma evolução com potenciais vantagens para quem conduz de forma consistente e previsível, mas que introduz igualmente uma nova equação no automóvel conectado: até que ponto estará o condutor disposto a trocar dados sobre a forma como conduz por um possível desconto no seguro?
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