Comerciais elétricos disparam 147% em Portugal, mas gasóleo continua a dominar o mercado europeu

Portugal registou um crescimento de 146,6% nas matrículas de veículos comerciais ligeiros eletrificados com carregamento externo nos primeiros nove meses de 2026, enquanto o mercado nacional de camiões avançou 34,1%. Na União Europeia, os comerciais ligeiros estagnaram, os camiões cresceram 7,5% e os autocarros 15,2%. Os dados divulgados pela Associação Europeia de Fabricantes de Automóveis (ACEA) mostram uma eletrificação em aceleração, mas também revelam a persistente dependência do gasóleo no transporte profissional.
O mercado europeu de veículos comerciais apresentou comportamentos distintos entre janeiro e setembro de 2026. Num contexto marcado pela subida dos preços da energia, a procura de veículos comerciais ligeiros manteve-se praticamente inalterada, enquanto os segmentos de camiões e autocarros registaram crescimento.
Segundo os dados publicados pela ACEA a 28 de outubro, foram matriculados 1.073.427 veículos comerciais ligeiros, 245.079 camiões e 32.695 autocarros na União Europeia durante os primeiros três trimestres do ano.
A evolução das motorizações revela, contudo, uma transformação gradual do mercado. Os veículos com possibilidade de carregamento externo continuam a ganhar expressão, sobretudo nos comerciais ligeiros e nos autocarros, embora o gasóleo permaneça dominante.
Portugal destaca-se neste relatório por dois indicadores: o crescimento das matrículas de comerciais ligeiros eletrificados e a recuperação do mercado de camiões, especialmente dos veículos pesados com massa igual ou superior a 16 toneladas.
Mercado europeu de comerciais ligeiros estagna
Entre janeiro e setembro, as matrículas de veículos comerciais ligeiros até 3,5 toneladas na União Europeia passaram de 1.073.654 unidades, em 2025, para 1.073.427 em 2026.
A diferença de apenas 227 veículos corresponde a uma variação praticamente nula.
Os principais mercados europeus apresentaram resultados distintos. Espanha registou crescimento, enquanto Alemanha, França e Itália encerraram os primeiros nove meses com quebras.
Mercado | Matrículas em 2026 | Variação homóloga |
União Europeia | 1.073.427 | 0,0% |
França | 249.656 | -5,6% |
Alemanha | 188.704 | -4,1% |
Espanha | 147.218 | +6,3% |
Itália | 133.992 | -5,1% |
Portugal | 25.133 | +9,2% |
A estabilidade do total europeu esconde, portanto, diferenças importantes entre os mercados nacionais.
Os dados não permitem identificar isoladamente as causas destas variações, mas mostram que a evolução da procura de veículos destinados a atividades profissionais está longe de ser uniforme.
Portugal cresce 9,2% e supera as 25 mil matrículas
Em Portugal, foram matriculados 25.133 veículos comerciais ligeiros entre janeiro e setembro, contra 23.007 no período homólogo de 2025.
O crescimento de 9,2% contrasta com a estagnação registada no conjunto da União Europeia.
O gasóleo manteve a liderança no mercado nacional, com 18.859 matrículas, apesar de uma redução de 7,7% face ao ano anterior.
A principal alteração ocorreu nos veículos eletrificados com carregamento externo, categoria estatística que inclui automóveis exclusivamente elétricos e híbridos plug-in.
As matrículas passaram de 2.449 para 6.039 unidades, o que representa um crescimento de 146,6%.
Em termos de quota de mercado, estes veículos passaram de aproximadamente 10,6% para 24,0% dos comerciais ligeiros matriculados em Portugal.
Trata-se de uma evolução particularmente expressiva, sobretudo quando comparada com os 14,1% registados na média da União Europeia.
Comerciais ligeiros em Portugal por motorização
Motorização | Jan.–set. 2025 | Jan.–set. 2026 | Variação |
Elétricos e híbridos plug-in | 2.449 | 6.039 | +146,6% |
Híbridos convencionais e mild hybrid | 10 | 144 | +1.340,0% |
Gasolina | 112 | 90 | -19,6% |
Gasóleo | 20.430 | 18.859 | -7,7% |
Outras motorizações | 6 | 1 | -83,3% |
Total | 23.007 | 25.133 | +9,2% |
A dimensão do crescimento merece atenção, mas também uma leitura proporcional. Apesar de quase triplicarem as matrículas face ao ano anterior, os veículos eletrificados com carregamento externo continuam a representar cerca de um quarto do mercado nacional de comerciais ligeiros novos.
O gasóleo, por sua vez, conserva aproximadamente 75% das matrículas portuguesas neste segmento.
Gasóleo ainda representa 78,1% dos comerciais ligeiros na União Europeia
No conjunto dos 27 Estados-membros, o gasóleo continuou a ser a motorização mais procurada para os veículos comerciais ligeiros.
Foram matriculadas 838.830 unidades a gasóleo, menos 4,3% do que no período homólogo.
A quota desta motorização recuou de 81,7% para 78,1%. Os veículos eletrificados com carregamento externo aumentaram 38,2%, atingindo 151.691 matrículas e uma quota de 14,1%, contra 10,2% em 2025.
As versões a gasolina recuaram 19,8%, passando a representar apenas 3,7% do mercado.
Já os híbridos convencionais e mild hybrid cresceram 35,6%, mas continuam limitados a 3,4% das matrículas.
A distribuição mostra que a transição energética está a avançar, embora a um ritmo diferente do observado no mercado de automóveis de passageiros.
No transporte profissional, a escolha da motorização está associada a fatores operacionais específicos, como autonomia em carga, capacidade útil, disponibilidade de carregamento, tempos de imobilização e custo total de utilização.
Estes fatores ajudam a enquadrar os desafios da eletrificação, mas os dados da ACEA não permitem determinar o peso individual de cada um nas decisões de compra.
Camiões crescem 7,5% na Europa e 34,1% em Portugal
O mercado europeu de camiões, que inclui veículos comerciais com massa superior a 3,5 toneladas, registou 245.079 matrículas nos primeiros nove meses de 2026, mais 7,5% do que no mesmo período do ano anterior.
A recuperação foi mais expressiva nos camiões pesados, com massa igual ou superior a 16 toneladas, que cresceram 8,5%, para 205.857 unidades.
Os camiões médios, entre 3,5 e 16 toneladas, registaram um aumento mais moderado de 2,5%, atingindo 39.222 unidades.
Entre os principais mercados, a Polónia cresceu 20,5%, Espanha avançou 13,2% e a Alemanha registou um aumento de 2,5%. França apresentou uma quebra de 1,6%.
Em Portugal, o crescimento foi substancialmente superior à média europeia.
As matrículas de camiões passaram de 4.261 unidades, em 2025, para 5.713 em 2026, correspondendo a um aumento de 34,1%.
O principal contributo veio dos camiões pesados, cujas matrículas cresceram 36,3%, de 3.835 para 5.227 unidades.
Os camiões médios avançaram 14,1%, totalizando 486 matrículas.
Segmento em Portugal | 2025 | 2026 | Variação |
Camiões médios (3,5–16 t) | 426 | 486 | +14,1% |
Camiões pesados (16 t ou mais) | 3.835 | 5.227 | +36,3% |
Total de camiões | 4.261 | 5.713 | +34,1% |
A evolução portuguesa revela uma recuperação acentuada das matrículas de veículos destinados ao transporte de mercadorias, sobretudo nas categorias de maior capacidade.
No entanto, os números não permitem concluir se o crescimento resulta predominantemente da renovação de frotas existentes, do aumento da capacidade operacional das empresas ou de outros fatores de mercado.
Camiões elétricos crescem quase 50%, mas representam apenas 5,3% do mercado europeu
A eletrificação dos camiões continua a apresentar uma diferença significativa entre a taxa de crescimento e o volume efetivo de veículos matriculados.
Na União Europeia, os camiões com carregamento externo registaram um aumento de 49,8%, passando de 8.591 para 12.873 unidades.
Apesar desta evolução, a sua quota de mercado ficou limitada a 5,3%.
O gasóleo manteve uma posição dominante, com 224.636 matrículas, equivalentes a 91,7% do mercado europeu.
A Alemanha foi o principal mercado para camiões eletrificados com carregamento externo, com 5.601 unidades, seguida pelos Países Baixos, com 2.217, e pela França, com 1.745.
Em conjunto, estes três países representaram aproximadamente 74% das matrículas europeias desta categoria. Em Portugal, foram matriculados 62 camiões eletrificados com carregamento externo, contra 38 no ano anterior, um crescimento de 63,2%.
Apesar da evolução percentual, estes veículos representaram apenas 1,1% das matrículas nacionais de camiões.
O contraste é particularmente evidente quando se observa o segmento de camiões pesados: Portugal passou de sete para 28 veículos eletrificados com carregamento externo, um crescimento de 300%, mas ainda com um volume reduzido perante as 5.227 matrículas totais da categoria.
A eletrificação do transporte pesado enfrenta exigências operacionais distintas das verificadas nos veículos comerciais ligeiros. A necessidade de transportar cargas elevadas, cumprir horários de distribuição e assegurar autonomia em percursos prolongados torna especialmente importante a disponibilidade de infraestruturas de carregamento adequadas.
Os resultados da ACEA mostram que a adoção destas motorizações está concentrada num número limitado de mercados europeus.
Autocarros crescem 15,2% na União Europeia
O segmento de autocarros apresentou a evolução mais expressiva entre as três categorias analisadas pela ACEA.
Entre janeiro e setembro de 2026, foram matriculados 32.695 autocarros na União Europeia, mais 15,2% do que no período homólogo.
A Itália tornou-se o maior mercado europeu deste segmento, com 5.338 matrículas e um crescimento de 34,4%. Seguiram-se França, com 5.289 unidades e um aumento de 10,5%, e Alemanha, com 5.245 matrículas e uma subida de 10,1%.
A Polónia destacou-se pelo crescimento de 68,6%, atingindo 3.107 unidades e tornando-se o quinto maior mercado da União Europeia. Espanha apresentou uma evolução mais moderada, de 1,3%, com 2.952 autocarros matriculados.
A procura de autocarros com carregamento externo cresceu 37,6% no conjunto europeu, alcançando 8.633 unidades.
A quota desta categoria passou de 22,1% para 26,4%.
O gasóleo manteve a liderança, com 58,4% do mercado, enquanto os híbridos convencionais e mild hybrid representaram 6,9%.
Portugal: autocarros eletrificados passam de 134 para 642 unidades
Os dados nacionais revelam uma transformação particularmente expressiva nas motorizações dos autocarros matriculados em 2026.
Portugal registou 1.168 novas matrículas entre janeiro e setembro, contra 882 no período homólogo de 2025, correspondendo a um crescimento de 32,4%. Os autocarros com carregamento externo passaram de 134 para 642 unidades, um aumento de 379,1%.
Esta categoria representou aproximadamente 55% das matrículas nacionais de autocarros, uma proporção muito superior à média europeia de 26,4%.
Em sentido contrário, as matrículas de autocarros a gasóleo recuaram 36,8%, de 747 para 472 unidades.
A distribuição das motorizações revela uma alteração significativa na composição das novas matrículas portuguesas.
Motorização dos autocarros em Portugal | 2025 | 2026 | Variação |
Elétricos e híbridos plug-in | 134 | 642 | +379,1% |
Híbridos convencionais e mild hybrid | 0 | 0 | — |
Gasóleo | 747 | 472 | -36,8% |
Outras motorizações | 1 | 54 | +5.300,0% |
Total | 882 | 1.168 | +32,4% |
A categoria de outras motorizações inclui diferentes tecnologias e combustíveis, não sendo possível determinar, a partir da tabela agregada, qual a proporção correspondente a cada solução.
O crescimento dos autocarros eletrificados é compatível com a evolução dos programas de renovação de frotas de transporte coletivo, mas o relatório da ACEA não identifica os operadores ou os contratos responsáveis pelas matrículas.
Importa ainda salientar que estes dados dizem respeito a veículos novos e não à composição da frota total de autocarros em circulação.
O balanço até setembro de 2026 confirma duas tendências: o mercado português de veículos comerciais cresceu acima da média europeia e a eletrificação está a ganhar expressão. Contudo, a dependência do gasóleo, sobretudo no transporte de mercadorias, demonstra que a transição energética dos veículos profissionais só está no início.
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