top of page

Editorial: Seat em Portugal - quando uma marca se apaga em silêncio

  • Foto do escritor: Artur Semedo - artur.semedo@publiracing.pt
    Artur Semedo - artur.semedo@publiracing.pt
  • 15 de nov. de 2025
  • 5 min de leitura
Editorial: Seat em Portugal - quando uma marca se apaga em silêncio

Nos últimos meses, há uma sensação que me acompanha sempre que olho para as estatísticas de mercado e para o trânsito real nas estradas portuguesas: vejo cada vez menos SEAT. Não é apenas impressão de quem passa a vida a testar carros e a cruzar tabelas; é algo que está hoje espelhado nos números oficiais de matrículas — incluindo a tabela de outubro de 2025 da ACAP que tenho à minha frente.


Clique AQUI
Clique AQUI

Na comparação entre outubro de 2025 e outubro de 2024, a SEAT perde expressão em quase todas as métricas relevantes: menos carros matriculados no mês, menos peso no acumulado do ano e uma queda clara no ranking de marcas. Enquanto algumas generalistas conseguem manter ou até crescer ligeiramente, a Seat em Portugal mingua em silêncio, perdendo visibilidade no mercado e, sobretudo, nas opções de compra dos portugueses.


Olho para estes dados e não vejo apenas uma variação estatística; vejo o reflexo de uma marca que deixou de ter narrativa clara no nosso país.


Lá fora, números fortes. Cá dentro, uma presença cada vez mais pálida

O paradoxo é curioso: a SEAT S.A. (o grupo que integra Seat e Cupra) fechou 2024 com crescimento de 7,5% nas vendas globais, para um total de 558 100 automóveis entregues, e lucros robustos na casa dos centenas de milhões de euros. Destes, cerca de 310 mil carros foram da marca Seat e 248 mil da Cupra, com Espanha a manter-se como o maior mercado individual, com 64 600 unidades (+8% vs 2023).


Em 2025, a SEAT S.A. continua a mostrar resiliência: as receitas cresceram 2,4% no primeiro trimestre, para 3,9 mil milhões de euros, com as entregas a subirem quase 6%. No primeiro semestre, o grupo ainda aumentou os volumes totais, apesar de uma queda planeada de produção em Martorell para preparar a nova família de pequenos elétricos do Grupo VW.


Ou seja: a “casa-mãe” está longe de estar morta. O problema não é o grupo — é a marca SEAT enquanto insígnia, especialmente num mercado pequeno e hiper-competitivo como Portugal, onde cada posição no ranking conta.


Editorial: Seat em Portugal - quando uma marca se apaga em silêncio


Cupra sobe, Seat desce — e o cliente fica sem perceber o que a marca quer ser

Parte da explicação para o declínio da Seat em Portugal está escrita na própria estratégia do Grupo VW:

  • A Cupra tornou-se o motor de crescimento e de margem, recebendo mais investimento, mais novidades de produto e mais protagonismo comunicacional.

  • A Seat, pelo contrário, vive uma fase de envelhecimento de gama (Ibiza, Arona, Leon) e incerteza sobre o seu papel no futuro elétrico do grupo.



Alguns meios internacionais chegaram a falar abertamente de um futuro “em dúvida” para a Seat enquanto marca de produto, realçando a falta de novos modelos anunciados e o foco crescente na Cupra.


A isto soma-se a saída de Wayne Griffiths, precisamente numa fase em que Martorell se prepara para produzir a futura família de elétricos urbanos para várias marcas do grupo.


Mudança de liderança em plena transformação raramente é um sinal de grande estabilidade.


Do ponto de vista do consumidor português, a mensagem que passa é simples:

  • Cupra é o futuro, elétrico, desportivo, aspiracional.

  • Seat é… o quê, exatamente?

Quando a proposta de valor se torna difusa, as vendas sofrem. E é isso que vemos nas estatísticas nacionais.


E em Portugal, o que corre mal?

Se olharmos para a tabela de matrículas de outubro de 2025, a SEAT em Portugal mostra aquilo que, editorialmente, eu chamaria de dois sintomas claros:


Perda de volume absoluto face a 2024, tanto no mês como no acumulado — em linha com aquilo que sinto nas estradas: vejo bem mais Seat usados do que novos. Para ser mais preciso, foram 370 unidades vendidas em outubro deste ano, contra as 552 novas matriculas do mesmo mês em 2024, o que revela uma queda nas vendas de -33%. Já no acumulado do ano e na soma dos 10 primeiros meses, os resultados negativos continuam - Foram 5.811 vendidas em 2025 contra as 6.484 unidades matriculadas em 2024, um resultado negativo de -10,4%.


Editorial: Seat em Portugal - quando uma marca se apaga em silêncio

Perda de relevância relativa face a rivais diretos: marcas como Fiat, Hyundai, Kia, MG, Dacia, até algumas chinesas emergentes, surgem com produtos mais frescos, campanhas agressivas de financiamento e comunicação clara de posicionamento.


Enquanto isso, a Seat parece estar “em pausa” — sem lançamentos de grande impacto, sem um elétrico próprio com narrativa forte, sem uma estratégia visível para o mercado português. Quando a marca não fala alto, o mercado rapidamente lhe passa por cima.


O que isto significa para o cliente e para os concessionários

Para o cliente particular, a situação é delicada:

  • Por um lado, os modelos Seat continuam tecnicamente competentes, partilhando plataformas e mecânicas com outras marcas do grupo.

  • Por outro, a perceção de futuro pesa. Quem pensa em comprar hoje quer saber se a marca terá continuidade, se a rede será forte, se o valor de retoma não vai colapsar.


Já para os concessionários, o cenário é ainda mais duro: vender uma marca com menos produto novo, menos apoio de marketing e menos atenção estratégica é como tentar remar contra a maré. Muitos sobrevivem porque complementam com Cupra, com outras marcas do grupo ou com usados multimarca. Mas isso não apaga o facto central: a Seat perdeu protagonismo na paisagem automóvel portuguesa de 2025.


Editorial: Seat em Portugal - quando uma marca se apaga em silêncio

A minha leitura — e o que podia (e devia) mudar

Na minha opinião, três coisas explicam a situação actual da Seat em Portugal:

  1. Estratégia global ambígua: O grupo VW não assume frontalmente que a Seat é uma marca de entrada, como fez, e muito bem, o Renault Group com a Dacia, nem a relança com a força que deu à Cupra. Fica num limbo estranho, sobretudo em mercados menores como o nosso onde cada unidade vendida conta para os números.

  2. Falta de produto novo com narrativa forte: Sem um elétrico de entrada de gama, sem um SUV verdadeiramente diferenciador, sem um modelo “herói” recente, a marca perde palco num mercado onde a novidade manda — e onde os incentivos e a comunicação puxam fortemente pela eletrificação.

  3. Comunicação fraca no mercado local: Num país onde o cliente ainda decide muito pelo que os especialistas falam e pela visibilidade da marca, a presença da Seat em salões, test-drives, comunicação digital e ações de rua é hoje discreta. Discreta demais.


Se a Seat quer voltar a ter a relevância que já teve em Portugal, precisa de clareza estratégica e coragem: assumir o seu papel como marca mais acessível, jovem e prática dentro do grupo — com um elétrico pequeno competitivo, uma gama simplificada mas relevante, e um discurso próximo dos condutores reais.


Enquanto isso não acontecer, a tendência é esta: Cupra sobe, Seat desce — e Portugal deixa de ser terreno fértil para uma marca que, em tempos, foi sinónimo de juventude e desportividade acessível.


👉 “A Revista Publiracing acredita em jornalismo isento, relevante e de qualidade. Se também valoriza informação independente, considere apoiar o nosso trabalho.”

Saiba mais clicando aqui ou vá para o link de apoio abaixo




Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação

Testes Revista Publiracing

Testes Revista Publiracing

Testes Revista Publiracing
Alfa Romeo Junior Veloce 280 prova que um Alfa elétrico pode emocionar

Alfa Romeo Junior Veloce 280 prova que um Alfa elétrico pode emocionar

02:58
Alfa Romeo Junior Veloce 280: o elétrico que ainda sabe divertir

Alfa Romeo Junior Veloce 280: o elétrico que ainda sabe divertir

02:55
Bancos Sabelt, costuras vermelhas e ADN italiano: conheça o interior do Junior Veloce

Bancos Sabelt, costuras vermelhas e ADN italiano: conheça o interior do Junior Veloce

02:55
Alfa Romeo Junior Veloce 280: 0-100 em 5,9s… ainda é um verdadeiro Alfa?

Alfa Romeo Junior Veloce 280: 0-100 em 5,9s… ainda é um verdadeiro Alfa?

02:50

Receba nossas atualizações

Obrigado pelo envio!

Estatuto Editorial

© 2025 AJLS Comunicação / Revista Publiracing   

bottom of page