Ford Almussafes celebra 50 anos: do primeiro Fiesta a mais de 14 milhões de automóveis produzidos

A 18 de outubro de 1976, o primeiro Ford Fiesta saía da linha de montagem de Almussafes, em Valência. Meio século depois, a fábrica espanhola acumula mais de 14,2 milhões de veículos produzidos, ultrapassou os 18 milhões de motores e tornou-se uma das unidades industriais mais importantes da história da Ford na Europa. Dos primeiros utilitários aos híbridos, a sua evolução acompanha cinco décadas de transformação da indústria automóvel espanhola.
A fábrica da Ford em Almussafes, na Comunidade Valenciana, completou 50 anos de produção automóvel em outubro de 2026. Inaugurada oficialmente a 25 de outubro de 1976, sete dias depois de sair o primeiro automóvel da linha de montagem, a unidade industrial tornou-se um dos principais centros de produção e exportação da marca norte-americana na Europa.
O complexo nasceu numa área anteriormente ocupada por terrenos agrícolas, escolhida pela proximidade ao porto de Valência, às instalações siderúrgicas de Sagunto e pela disponibilidade de espaço para uma operação industrial de grande dimensão.
O primeiro modelo produzido foi o Ford Fiesta, um automóvel que viria a marcar várias gerações de condutores europeus. Ao longo das décadas seguintes, a fábrica recebeu modelos como Escort, Orion, Ka, Focus, Mondeo, Kuga, S-MAX, Galaxy e Transit Connect.
Segundo os dados históricos divulgados pela Ford para assinalar o aniversário, Almussafes acumulou 14.269.411 veículos produzidos, dos quais mais de 11,2 milhões foram destinados à exportação.
Uma história que começou muito antes de 1976
Embora a fábrica de Almussafes tenha iniciado a produção em 1976, a presença industrial da Ford em Espanha é bastante anterior.
Em 1907 foi estabelecida a primeira agência da marca em Barcelona. Nesse ano foram vendidos cinco automóveis, número que aumentou para 190 matrículas em 1908.
A atividade industrial começou a ganhar expressão em Cádiz, onde, a 5 de abril de 1920, saiu dos ateliers da Segunda Aguada o primeiro Ford montado em território espanhol.
Durante os três anos seguintes foram montadas aproximadamente 10 mil unidades entre automóveis Ford T e camiões TT, além de cerca de 500 tratores Fordson.
A dimensão económica da época é ilustrada pelos preços divulgados pela marca: um Ford T custava 5.100 pesetas, enquanto um trabalhador da fábrica recebia cerca de 12 pesetas por dia.
Em 1923, a produção foi transferida para Barcelona, mais concretamente para a Avenida Icaria. A empresa passou a designar-se Ford Motor Ibérica em 1929.
Depois da saída da Ford de Espanha em 1944, o regresso começou a ser preparado em abril de 1970, através de contactos com as autoridades espanholas para a instalação de uma nova unidade industrial.

De 636 terrenos agrícolas a uma fábrica de automóveis
A construção de Almussafes exigiu uma operação de aquisição e transformação territorial de grande escala.
A Ford escolheu uma área de aproximadamente 270 hectares, anteriormente dividida em 636 propriedades agrícolas. Os trabalhos de preparação do terreno começaram a 19 de janeiro de 1974, envolvendo a regularização de 108 parcelas.
Henry Ford II colocou a primeira pedra a 26 de março de 1974.
A localização foi determinada por fatores essencialmente industriais e logísticos. O terreno relativamente plano facilitava a construção, enquanto a proximidade ao porto de Valência, a cerca de 25 quilómetros, permitia organizar o transporte de componentes e a exportação dos automóveis produzidos.
A siderurgia de Sagunto constituía outro elemento relevante para a implantação industrial.
Almussafes não foi, contudo, a única localização considerada. Outras localidades espanholas, incluindo Talavera de la Reina, procuraram atrair o investimento.
A fábrica acabaria por iniciar a produção de motores antes da montagem dos primeiros automóveis.

Ford Fiesta: o automóvel que deu início a tudo
O primeiro motor saiu da linha de produção a 1 de março de 1976. O primeiro Ford Fiesta ficou concluído a 18 de outubro do mesmo ano, 231 dias depois.
O projeto que deu origem ao Fiesta era conhecido internamente como Bobcat.
Antes da escolha definitiva do nome, foram consideradas várias alternativas, incluindo Amigo, Bambi, Bravo, Chico, Bebe e Sierra.
A designação Bravo era uma das preferidas das equipas de marketing, mas Henry Ford II acabou por escolher Fiesta. Segundo o relato histórico da marca, foi necessário obter a cedência do nome junto da General Motors, que anteriormente o tinha utilizado.
O Fiesta distinguiu-se também por representar uma mudança na presença industrial da Ford em Espanha. Ao contrário dos veículos anteriormente montados em Cádiz e Barcelona com componentes provenientes do estrangeiro, o novo utilitário foi o primeiro modelo da marca produzido integralmente no país, segundo a Ford.
Em 1976, Almussafes fabricou 17.508 automóveis e 147.953 motores.
O crescimento foi rápido. No primeiro ano completo de produção, em 1977, saíram da fábrica 213.897 unidades do Fiesta. Em 1978, o modelo atingiu 267.970 unidades, o seu melhor resultado anual naquela instalação.
A procura acompanhou o ritmo industrial. Em abril de 1977, as listas de espera para adquirir um Fiesta ultrapassavam um ano.
A 2 de janeiro de 1981, a fábrica atingiu a marca de um milhão de Ford Fiesta produzidos.

O motor Valencia e a importância da engenharia mecânica
A ligação entre o Fiesta e a fábrica espanhola ficou igualmente registada na história dos motores da Ford.
O utilitário utilizava uma evolução do motor Ford Kent OHV, adaptada à configuração de motor transversal e tração dianteira.
Esta unidade mecânica passou a ser conhecida como motor Valencia, numa referência direta à localização da fábrica.
O motor recorria a uma arquitetura de válvulas à cabeça acionadas por varetas, uma solução relativamente simples que permitia controlar os custos de produção e manutenção.
A adaptação ao Fiesta exigiu alterações para responder às necessidades de instalação num automóvel compacto de tração dianteira.
A produção de motores manteve-se como uma das principais atividades de Almussafes.
O primeiro milhão foi atingido a 4 de julho de 1979. Em julho de 2000, a fábrica chegou aos 10 milhões e, em 2025, ultrapassou os 18 milhões de motores produzidos.
O recorde anual foi estabelecido em 1997, com 686.090 unidades.

Escort, Orion e Ka: a diversificação da produção
Durante os primeiros cinco anos, o Fiesta foi o único automóvel produzido em Almussafes.
Essa situação alterou-se a 24 de agosto de 1981, com a chegada do Ford Escort.
Em dezembro de 1983 começou a produção do Orion, ampliando a presença da fábrica no segmento dos automóveis familiares.
A década de 1990 trouxe uma nova fase de diversificação.
O Ford Ka começou a ser produzido a 2 de setembro de 1996. Até ao final desse ano foram fabricadas 65.515 unidades, número que subiu para 215.282 em 1998.
A 17 de junho de 2002, a fábrica atingiu um milhão de unidades do Ka.
O modelo ficou associado à linguagem de design New Edge, que introduziu uma identidade visual diferenciada na gama Ford dos anos 1990, através da combinação de superfícies curvas com elementos geométricos marcantes.
O Focus iniciou a produção em Almussafes a 31 de agosto de 1998.
Apenas um ano depois, em 1999, a fábrica produziu 181.361 unidades. O melhor resultado anual do Focus na unidade espanhola ocorreu em 2004, com 257.267 automóveis.
O ano de 2004 e o recorde de produção
O ano de 2004 continua a destacar-se na história industrial de Almussafes.
Nesse período, a fábrica produziu 449.101 automóveis, o maior volume anual indicado no histórico divulgado pela Ford.
A produção distribuiu-se por quatro modelos:
Modelo | Produção em 2004 |
Ford Focus | 257.267 |
Ford Ka | 78.642 |
Ford Fiesta | 71.783 |
Mazda2 | 41.409 |
Total | 449.101 |
A 1 de junho desse ano, a fábrica atingiu também o marco de oito milhões de veículos produzidos.

A presença do Mazda2 constituiu um episódio particular na história de Almussafes.
Produzido entre janeiro de 2003 e junho de 2007, o modelo japonês foi o primeiro automóvel de outra marca a sair das linhas da unidade espanhola.
Durante esse período foram fabricadas 161.962 unidades.
Para a Mazda, tratou-se do primeiro modelo produzido numa fábrica europeia.
De compactos a familiares, SUV e comerciais
A evolução da produção em Almussafes acompanhou as mudanças na procura do mercado europeu.
O Ford C-MAX ganhou importância na década de 2010, atingindo 121.094 unidades em 2011, mais do que os volumes individuais do Focus e do Fiesta nesse mesmo ano.
O Kuga começou a ser produzido em dezembro de 2012. Só nos primeiros 28 dias de atividade, a fábrica montou 6.870 unidades do SUV.
A Transit Connect entrou em produção a 30 de setembro de 2013, tendo alcançado o seu melhor resultado em 2015, com 123.139 unidades.
A produção terminou em abril de 2024, depois de um total acumulado de 959.364 unidades.
O Mondeo começou a ser fabricado em setembro de 2014, enquanto o S-MAX e o Galaxy chegaram em maio de 2015.
Nesse ano, a fábrica produzia simultaneamente cinco modelos: Transit Connect, Kuga, Mondeo, S-MAX e Galaxy.
A produção anual atingiu 388.434 veículos.
O aumento da atividade teve reflexos no emprego. Entre 2011 e 2015, o número de trabalhadores passou de 5.601 para 9.301, um crescimento de aproximadamente 66%.
Estes números ilustram uma fase de forte utilização da capacidade instalada, mas não representam a situação atual do emprego na fábrica.
O primeiro Ford híbrido produzido na Europa
A eletrificação também faz parte da história industrial de Almussafes.
O Ford Mondeo Hybrid tornou-se o primeiro automóvel híbrido da marca produzido na Europa, assinalando uma mudança importante na atividade da fábrica.
A produção de um híbrido implica a integração de sistemas mecânicos e elétricos, eletrónica de potência e componentes específicos de gestão energética.
Embora a unidade espanhola tivesse décadas de experiência na produção de motores e veículos convencionais, a introdução de motorizações eletrificadas exigiu novas competências e processos de montagem.
A produção do Mondeo Hybrid representou, por isso, uma etapa relevante na adaptação da fábrica às transformações tecnológicas da indústria automóvel.

Quase 80% da produção destinada à exportação
A dimensão internacional de Almussafes é demonstrada pelos números acumulados de exportação.
Segundo a Ford, dos 14.269.411 veículos produzidos ao longo da história da fábrica, 11.244.124 foram exportados, o equivalente a aproximadamente 79% do total.
O recorde anual de exportações foi registado em 2017, com 398.226 veículos enviados para mercados externos.
Entre 2013 e 2022, a percentagem de automóveis exportados nunca desceu abaixo dos 86% da produção anual.
Estes números evidenciam o papel da fábrica espanhola na estrutura industrial europeia da Ford.
O porto de Valência desempenhou uma função central nessa atividade. Em maio de 1991, a fábrica atingiu a marca de um milhão de veículos exportados através daquela infraestrutura portuária.
Um parque de fornecedores ligado por túnel
A organização logística foi outro dos elementos que marcaram a evolução de Almussafes.
Em janeiro de 1995 foi apresentado um sistema de ligação entre a fábrica e o parque de fornecedores através de um túnel.
A solução permitia receber componentes de forma sequenciada, de acordo com a ordem em que seriam utilizados nas linhas de montagem.
Este modelo de abastecimento, associado aos princípios de produção just-in-time e just-in-sequence, contribui para reduzir a necessidade de armazenar grandes quantidades de peças junto às linhas.
A integração logística entre fabricantes e fornecedores tornou-se progressivamente mais importante à medida que aumentaram a diversidade de versões, os níveis de equipamento e a complexidade dos veículos.
A fábrica também investiu em formação técnica. O Centro de Formação foi inaugurado em março de 1990, seguindo-se a sua ampliação em 1993 e a abertura da Escola Universitária em fevereiro de 1995.
Cinquenta anos depois do primeiro Ford Fiesta, Almussafes permanece como um marco da industrialização automóvel espanhola. A sua história é também a de uma fábrica que passou da produção de um único utilitário a uma operação industrial diversificada, profundamente ligada às exportações e à evolução tecnológica do automóvel europeu.
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