Garantias até 10 anos e baterias protegidas por um milhão de quilómetros: quem oferece mais em Portugal?

A garantia deixou de ser apenas uma proteção contra avarias para se transformar num argumento de venda, sobretudo com a chegada de novas marcas e a expansão do automóvel elétrico. Em Portugal já há fabricantes a oferecer sete anos e 300 mil quilómetros para o veículo ou baterias protegidas durante uma década sem limite de quilometragem. Mas os números, isoladamente, escondem diferenças importantes nas condições.
Durante muitos anos, comprar um automóvel novo significava aceitar uma garantia relativamente semelhante independentemente da marca escolhida. A eletrificação, a crescente complexidade tecnológica dos veículos e, sobretudo, a entrada de novos fabricantes no mercado europeu alteraram esse cenário. Hoje, a duração da garantia tornou-se parte da própria competição comercial.
E Portugal já oferece exemplos interessantes.
A primeira conclusão desta pesquisa que fizemos exclusivamente com dados oficiaais divulgados nos sites das empresas, é que não existe uma única resposta para a pergunta "qual é a marca que oferece maior garantia?". Tudo depende daquilo que estamos a comparar. Uma coisa é a cobertura geral do automóvel; outra é, no caso dos veículos eletricos, a bateria de alta tensão, os próprios motores elétricos, inversores e restantes componentes do sistema de propulsão. Também não podemos colocar no mesmo plano uma garantia de fábrica automática e um programa renovado mediante determinadas condições.
Feita essa separação, aparecem diferenças consideráveis.
Dongfeng sobe a fasquia: 7 anos ou 300 mil quilómetros
Entre as garantias gerais atualmente anunciadas em Portugal, a Dongfeng apresenta uma das propostas mais extensas: sete anos ou 300.000 km para o veículo, consoante o que ocorrer primeiro. A condição aplica-se aos ligeiros de passageiros matriculados desde 1 de março de 2026 e vendidos por concessionários autorizados da marca a consumidores finais.
Mas é na componente elétrica que os números ganham outra dimensão. A marca anuncia 10 anos sem limite de quilometragem para a bateria de alta tensão e grupo motopropulsor. Há, contudo, condições relevantes: trata-se de uma extensão oferecida mediante acordo, exige manutenção na rede oficial e está associada ao primeiro proprietário, não sendo transmissível em caso de mudança de titularidade. Veículos destinados a táxi, TVDE ou outras utilizações lucrativas também ficam fora dessa extensão.
Ou seja, os números são excecionalmente elevados, mas não devem ser apresentados sem estas ressalvas.
Voyah também chega aos 10 anos sem limite de quilómetros
A Voyah, pertencente ao mesmo universo industrial da Dongfeng, adotou uma estratégia semelhante para os seus elétricos comercializados em Portugal. A marca anuncia seis anos ou 200.000 km para o veículo e 10 anos sem limite de quilometragem para a bateria de alta tensão e grupo motopropulsor, para ligeiros de passageiros matriculados desde 1 de março de 2026.
Também aqui a extensão depende do cumprimento do plano de manutenção na rede oficial, está associada ao primeiro proprietário e não se aplica nos mesmos termos a táxis, TVDE, rent-a-car ou utilização profissional especificada pela marca.
É uma distinção importante, porque demonstra como a leitura de uma garantia não pode terminar no número de anos impresso numa campanha.
Toyota e Lexus: um milhão de quilómetros para a bateria, mas com condições
Toyota e Lexus seguem uma filosofia diferente.
Nos veículos 100% elétricos Toyota, a bateria de tração está abrangida pela garantia de fabrico até oito anos ou 160.000 km. Depois, através do Programa de Cuidados da Bateria, essa proteção pode ser renovada até aos 10 anos de idade ou um milhão de quilómetros, mediante a realização anual do EV Health Check. A Toyota estabelece como referência a manutenção de pelo menos 70% da capacidade original, e esclarece que estas condições não se aplicam à gama Proace.
Na Lexus encontramos uma estrutura semelhante. A marca portuguesa anuncia para os BEV cinco anos ou 100.000 km contra defeitos funcionais e oito anos ou 160.000 km relativamente à capacidade mínima de 70%. A cobertura pode depois ser renovada anualmente até ao décimo ano ou 1.000.000 km, desde que seja efetuada a verificação anual do sistema elétrico durante a manutenção programada num centro Lexus.
É, portanto, uma das maiores quilometragens publicitadas oficialmente para proteção da bateria no mercado português, mas não corresponde simplesmente a uma garantia de fábrica de dez anos e um milhão de quilómetros sem requisitos intermédios.
Mercedes-Benz chega aos 10 anos ou 250 mil quilómetros
A Mercedes-Benz segue um caminho distinto. Para modelos elétricos como EQE e EQS, a marca estabeleceu um certificado de desempenho para a bateria de alta tensão de 10 anos ou 250.000 km, consoante o limite atingido primeiro, associado a uma determinada capacidade residual. A informação consta da documentação oficial da Mercedes-Benz em Portugal e também do programa Mercedes-Benz Certified.
Aqui encontramos uma estratégia diferente daquela adotada pela maioria dos fabricantes europeus, que continua concentrada nos oito anos ou 160.000 km.
BYD: oito anos, mas agora até 250 mil quilómetros
A BYD também se distancia desse padrão. Em Portugal, todos os ligeiros de passageiros da marca beneficiam de seis anos ou 150.000 km de garantia de fabricante, enquanto a Blade Battery dispõe de oito anos ou 250.000 km, com garantia de estado de saúde igual ou superior a 70%.
O sistema de tração — motor elétrico, caixa redutora e controlador do motor — está abrangido durante seis anos ou 150.000 km. A BYD mantém ainda 12 anos de proteção anticorrosão da carroçaria.
A quilometragem da bateria é o dado mais relevante aqui. Oito anos tornaram-se praticamente a referência da indústria, mas os 250.000 km da BYD ficam acima dos habituais 160.000 km de muitas marcas.
smart: bateria até 200 mil quilómetros e componentes elétricos separados
A smart opta por outra abordagem. A bateria de alta tensão dispõe de oito anos ou 200.000 km, com referência a um estado de saúde de 70%. Já os principais componentes de alta tensão — incluindo motor elétrico e unidades de controlo — estão cobertos durante oito anos ou 160.000 km.
Esta separação é importante. Falar genericamente em "garantia do sistema elétrico" pode induzir o consumidor em erro, porque bateria, motor, inversor e eletrónica de potência nem sempre possuem exatamente a mesma cobertura.
Hyundai: sete anos sem limite de quilómetros para o automóvel
Se retirarmos a bateria da equação e analisarmos a garantia geral do veículo, a Hyundai continua a destacar-se em Portugal por uma característica pouco habitual: sete anos sem limite de quilometragem para ligeiros de passageiros elegíveis vendidos pela rede oficial a consumidores finais. A política aplica-se aos veículos matriculados desde 1 de setembro de 2019, de acordo com as condições da marca.
Nos elétricos, híbridos e híbridos plug-in, as baterias de alta tensão têm uma cobertura de oito anos ou 160.000 km. Modelos como INSTER e IONIQ 9 confirmam oficialmente esta combinação de sete anos sem limite de quilometragem para o veículo e oito anos/160.000 km para a bateria.
Para quem percorre muitos quilómetros por ano, a ausência de limite quilométrico na garantia geral pode ter mais valor prático do que uma garantia nominalmente mais longa, mas limitada a uma determinada distância.
MG, Omoda e Jaecoo: sete anos como argumento competitivo
A garantia de sete anos deixou, entretanto, de ser uma exceção.
A MG anuncia para modelos como o MGS5 EV sete anos ou 150.000 km, abrangendo garantia base do veículo, sistema de transmissão elétrica de alta tensão e bateria.
Omoda e Jaecoo seguem uma fórmula semelhante no mercado português: sete anos ou 150.000 km para o automóvel e oito anos ou 160.000 km para a bateria — valores publicados pela representação portuguesa das duas marcas.
A KGM também chega aos sete anos ou 150.000 km em modelos específicos eletrificados, como Torres EVX e Musso EV, embora a garantia geral de outros modelos da gama seja diferente.
Kia mantém os sete anos, incluindo a bateria
A Kia foi uma das marcas que ajudou a transformar uma garantia longa num argumento comercial na Europa. A política europeia oficial mantém os sete anos ou 150.000 km para o automóvel, com as baterias de alta tensão dos EV, HEV e PHEV abrangidas pelo mesmo período. Nos elétricos e híbridos plug-in existe ainda uma garantia de capacidade mínima de 70% durante esse tempo.
A diferença face a algumas propostas mais recentes está na bateria: a garantia geral da Kia continua competitiva, mas oito anos tornaram-se entretanto comuns no mercado elétrico.
Oito anos ou 160 mil quilómetros tornaram-se a referência
É aqui que a comparação revela uma tendência interessante: oito anos ou 160.000 km estão rapidamente a tornar-se o padrão de facto para as baterias de alta tensão.
A BMW oferece oito anos ou 160.000 km nos elétricos, incluindo proteção contra a redução de capacidade abaixo de 70%. A Volvo aplica o mesmo limite de oito anos/160.000 km, com intervenção caso a capacidade desça abaixo de 70% nesse período. A Polestar segue a mesma fórmula: oito anos, 160.000 km e 70% de SoH.
Škoda garante mais de 70% da capacidade original durante oito anos ou 160.000 km, enquanto Peugeot estabelece oito anos ou 160.000 km com mínimo de 70% para os seus elétricos e híbridos plug-in. A Nissan anuncia igualmente oito anos ou 160.000 km para as baterias dos seus elétricos.
A Audi oferece também oito anos ou 160.000 km para a bateria de tração, embora a documentação portuguesa faça uma ressalva importante: a garantia geral indicada nessa página cobre defeitos de material e fabrico e não inclui automaticamente a perda de capacidade útil nos mesmos termos das marcas que estabelecem explicitamente um limite de 70%.
É por diferenças como esta que comparar apenas "8 anos/160.000 km" entre marcas pode ser enganador.
Tesla: até 240 mil quilómetros e 70% de capacidade
A Tesla também varia a garantia conforme a versão.
Model 3 RWD e Model Y RWD têm bateria e unidade de acionamento cobertas durante oito anos ou 160.000 km. Nas versões Long Range e Performance indicadas atualmente pela Tesla Portugal, o limite aumenta para 192.000 km. Model S e Model X chegam aos 240.000 km. Em todos estes casos, a marca estabelece uma retenção mínima de 70% da capacidade da bateria durante o período aplicável.
A garantia básica do automóvel é, contudo, bastante mais curta: quatro anos ou 80.000 km.
É um bom exemplo de como uma marca pode apresentar uma garantia muito robusta para bateria e sistema de propulsão sem necessariamente oferecer uma das maiores coberturas gerais para o restante automóvel.
As maiores garantias atualmente anunciadas em Portugal
Marca | Garantia geral do veículo | Bateria de alta tensão | Sistema elétrico/propulsão | Particularidade |
Dongfeng | 7 anos / 300.000 km | 10 anos / km ilimitados | 10 anos / km ilimitados | Extensão condicionada; primeiro proprietário |
Voyah | 6 anos / 200.000 km | 10 anos / km ilimitados | 10 anos / km ilimitados | Extensão condicionada; primeiro proprietário |
Toyota | Até 10 anos / 200.000 km via Relax | Até 10 anos / 1.000.000 km | Conforme programa/modelo | Bateria condicionada a verificação anual |
Lexus | Até 10 anos / 200.000 km via Relax | Até 10 anos / 1.000.000 km | Conforme programa/modelo | Renovação anual e condições específicas |
Mercedes-Benz | Conforme modelo/garantia aplicável | Até 10 anos / 250.000 km em modelos elegíveis | Conforme modelo | Certificado de bateria |
BYD | 6 anos / 150.000 km | 8 anos / 250.000 km; ≥70% SoH | 6 anos / 150.000 km | Motor, redutor e controlador abrangidos |
Tesla | 4 anos / 80.000 km | Até 8 anos / 240.000 km; ≥70% | Unidade de acionamento incluída | Quilometragem varia por versão |
smart | Conforme modelo/condições | 8 anos / 200.000 km; 70% SoH | 8 anos / 160.000 km | Componentes HV discriminados |
Hyundai | 7 anos / km ilimitados | 8 anos / 160.000 km | Conforme condições | Destaque para km ilimitados no veículo |
Omoda/Jaecoo | 7 anos / 150.000 km | 8 anos / 160.000 km | Conforme condições | Toda a gama |
MG | 7 anos / 150.000 km | 7 anos / 150.000 km | 7 anos / 150.000 km no MGS5 EV | Cobertura homogénea |
Kia | 7 anos / 150.000 km | 7 anos / 150.000 km | Integrado nas condições | 70% para bateria EV/PHEV |
Valores referentes às condições oficialmente divulgadas pelas marcas para o mercado português/europeu aplicável, consultadas em setembro de 2026. Algumas coberturas são extensões ou programas condicionados e não devem ser confundidas com a garantia de fábrica inicial.
Os anos contam apenas metade da história
Esta pesquisa deixa uma conclusão que considero mais importante do que determinar simplesmente quem "ganha" pelo maior número.
A garantia do automóvel elétrico está a amadurecer.
Quando praticamente toda a indústria estabelece oito anos para uma bateria e alguns fabricantes começam a avançar para dez anos, 250.000 km, um milhão de quilómetros ou mesmo quilometragem ilimitada, o argumento de que a bateria constitui necessariamente um componente de vida curta torna-se cada vez mais difícil de sustentar.
Mas também é necessário cuidado com o movimento contrário: uma garantia longa não significa que tudo esteja coberto durante todo esse período.
Há que perguntar se a garantia acompanha o automóvel quando este muda de proprietário; se exige manutenção exclusiva na rede oficial ou parceiros indicados; se protege apenas contra defeitos ou também contra degradação; qual o SoH mínimo garantido; se motor, inversor, redutor, carregador de bordo e eletrónica de potência estão incluídos; e quais as condições para utilização profissional.
Há diferenças enormes escondidas atrás de dois números aparentemente iguais.
Um "8 anos/160.000 km" que garante a bateria contra defeitos não é necessariamente equivalente a outro que, além disso, assegura explicitamente que a capacidade não descerá abaixo de 70%.
A garantia começa também a influenciar o valor do usado
Existe ainda uma consequência que merece atenção. Quanto mais longa e, sobretudo, quanto mais transferível for a garantia, maior poderá ser a sua importância no mercado de usados.
Um elétrico com cinco anos que ainda disponha de três anos de proteção da bateria, e que apresente um certificado de SoH, oferece ao comprador uma informação que há poucos anos praticamente não existia. A Volvo já introduziu certificados de saúde da bateria em vários elétricos usados do programa Selekt, mantendo a cobertura original até oito anos ou 160.000 km. A BYD segue caminho semelhante no programa Certified, mantendo nos veículos elegíveis o remanescente dos oito anos/250.000 km da bateria e entregando também um certificado de SoH.
Isso pode ter consequências diretas sobre confiança, financiamento, seguro e valor residual.
A discussão sobre garantias está, por isso, a deixar de ser um detalhe do pós-venda. Está a transformar-se numa medida indireta da confiança que cada fabricante está disposto a assumir perante a durabilidade da sua tecnologia.
E num mercado em que o automóvel elétrico ainda enfrenta dúvidas sobre a longevidade da bateria, talvez seja aí que estas garantias ganham o seu maior significado: não no número impresso na publicidade, mas no risco que o fabricante aceita assumir nos anos seguintes à venda.
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