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Há 70 anos, uma família francesa desafiou a Europa ao volante de um Porsche 356 até ao extremo norte do continente

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    Redação Europa
  • há 16 horas
  • 5 min de leitura

Há 70 anos, uma família francesa desafiou a Europa ao volante de um Porsche 356 até ao extremo norte do continente

Muito antes das autoestradas modernas e da popularização das grandes viagens de automóvel, uma família francesa percorreu cerca de 10 mil quilómetros num Porsche 356, desde Paris até ao norte da Escandinávia. Setenta anos depois, uma fotografia esquecida revelou uma história de aventura, inovação e paixão pela marca alemã que continua a inspirar gerações.


No verão de 1955, quando viajar pela Europa significava enfrentar estradas de gravilha, ferries, longas distâncias e uma infraestrutura rodoviária ainda muito distante da realidade atual, Louis Malavieille decidiu transformar um sonho numa aventura familiar. Aos 48 anos, o arquiteto e empresário francês acabara de adquirir um Porsche 356 Pre-A 1500 S Coupé, de 1953, e acreditava que aquele seria o automóvel ideal para levar a mulher, Madeleine, e os filhos Patrice e Franc-Loup até ao ponto mais setentrional da Europa.


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O plano parecia quase irrealista para a época: percorrer cerca de 10.000 quilómetros em apenas quatro semanas, entre Paris e Honningsvåg, no norte da Noruega, numa altura em que o Cabo Norte ainda nem sequer era acessível por estrada e a rede europeia de autoestradas existia apenas como projeto. Ainda assim, a família partiu determinada a provar que um desportivo também podia ser um automóvel de aventura.


Durante décadas, esta viagem permaneceu praticamente esquecida, até que uma antiga fotografia a cores publicada num fórum dedicado à Porsche despertou a curiosidade do colecionador norueguês Øystein Asphjell. A imagem mostrava um jovem junto a um Porsche 356 de matrícula parisiense, parado num ferry algures entre os fiordes noruegueses. A investigação acabaria por conduzi-lo até Jean-Michel Malavieille, filho de Franc-Loup e neto de Louis, permitindo recuperar uma das histórias mais curiosas da primeira geração de proprietários Porsche.


Há 70 anos, uma família francesa desafiou a Europa ao volante de um Porsche 356 até ao extremo norte do continente
Há 70 anos, uma família francesa desafiou a Europa ao volante de um Porsche 356 até ao extremo norte do continente

Uma viagem muito à frente do seu tempo

Hoje, viajar de Paris até ao Cabo Norte representa cerca de 3.700 quilómetros de estradas totalmente asfaltadas. Em 1955, porém, a realidade era completamente diferente. Grande parte do percurso era feita em estradas estreitas, irregulares e de gravilha, exigindo resistência tanto ao automóvel como aos seus ocupantes.


Louis Malavieille, apaixonado pelo mundo automóvel e pela engenharia, acreditava plenamente nas capacidades do Porsche 356. Formado em arquitetura, destacou-se igualmente como inventor na indústria dos plásticos e trabalhou na Renault, onde participou no desenvolvimento de soluções tecnológicas bastante avançadas para a época, incluindo um sistema de transmissão com controlo eletrónico muito antes de este conceito se tornar comum na indústria automóvel.


Foi precisamente essa confiança na engenharia que o levou a escolher o Porsche para aquela aventura. O 356 reunia duas características fundamentais: desempenho e fiabilidade.


Há 70 anos, uma família francesa desafiou a Europa ao volante de um Porsche 356 até ao extremo norte do continente

Quatro pessoas e uma tenda dentro de um desportivo

Transportar uma família de quatro pessoas durante um mês num pequeno coupé exigiu criatividade. O banco traseiro foi removido para aumentar o espaço destinado à bagagem, aos sacos-cama e ao equipamento de campismo. Patrice e Franc-Loup, então com apenas 11 e 13 anos, viajaram praticamente sentados sobre a bagagem durante milhares de quilómetros.


Os hotéis eram uma exceção. Sempre que possível, a família dormia em parques de campismo, utilizando uma pequena tenda transportada no automóvel. O calor proveniente do motor traseiro ajudava inclusivamente a tornar as viagens mais confortáveis para as crianças, recorda hoje Franc-Loup, atualmente com 83 anos.


Além da aventura em família, o Porsche transformava-se numa verdadeira atração por onde passava. Nas regiões mais remotas da Escandinávia, um automóvel desportivo era uma raridade absoluta, despertando curiosidade entre habitantes locais e viajantes.


Há 70 anos, uma família francesa desafiou a Europa ao volante de um Porsche 356 até ao extremo norte do continente

Fiordes, montanhas e travões levados ao limite

Entre os momentos mais marcantes da viagem encontra-se a passagem pelo Fiorde de Geiranger, atualmente classificado como Património Mundial da UNESCO.


As estradas de montanha colocaram à prova tanto o automóvel como o seu condutor. As descidas longas e extremamente inclinadas obrigaram Louis Malavieille a efetuar diversas paragens para permitir o arrefecimento dos travões, evitando qualquer risco de avaria numa região onde a assistência mecânica praticamente não existia.


Franc-Loup recorda ainda hoje o intenso cheiro a travões sobreaquecidos enquanto desciam uma das estradas mais exigentes da Noruega. Apesar das dificuldades, o Porsche completou toda a viagem sem qualquer problema mecânico.


Uma Europa muito diferente

A aventura prosseguiu pela Lapónia finlandesa, onde a paisagem mudou completamente. Aos fiordes e montanhas sucederam-se milhares de lagos, extensas florestas e o contacto com o povo Sami, cujas tradições marcaram profundamente a memória das crianças.


Algumas das fotografias preservadas mostram o Porsche decorado com ramos de zimbro e uma impressionante armação de chifres de rena, oferecida durante uma visita a um acampamento Sami. Franc-Loup conserva ainda hoje, na sua secretária em Paris, a faca tradicional que o pai lhe ofereceu durante essa passagem por Enontekiö.


Há 70 anos, uma família francesa desafiou a Europa ao volante de um Porsche 356 até ao extremo norte do continente

Um álbum de família que atravessou sete décadas

Louis Malavieille era também um apaixonado pela fotografia. Enquanto a maioria das famílias utilizava ainda película a preto e branco, decidiu registar toda a viagem em película Kodak a cores.


Mais de uma dezena dessas imagens sobreviveram ao tempo e permitem hoje reconstruir uma viagem absolutamente invulgar para a época, testemunhando não apenas uma aventura familiar, mas também a extraordinária robustez do Porsche 356.

Quando regressaram a Paris, o conta-quilómetros marcava aproximadamente 10.000 quilómetros. Segundo Franc-Loup, toda a viagem foi concluída sem uma única avaria mecânica.


Uma paixão que atravessou gerações

A experiência transformou definitivamente a relação da família com a Porsche. Pouco tempo depois, Louis adquiriu um novo Porsche 356 A 1600, desta vez pintado de vermelho, consolidando uma paixão que passaria também para os filhos e netos.


Hoje, Franc-Loup conduz um Porsche 911 Carrera 4S (991), enquanto o filho Jean-Michel continua empenhado em localizar o histórico Porsche 356 utilizado pelo avô naquela extraordinária viagem. Até ao momento, porém, o automóvel permanece desaparecido.


Em contrapartida, Franc-Loup conseguiu concretizar um desejo antigo. Há dois anos regressou ao norte da Noruega e, desta vez, alcançou finalmente o Cabo Norte, objetivo que o pai não pôde completar em 1955 porque a estrada ainda não existia.


Apesar disso, há uma certeza que permanece inalterada ao longo de sete décadas. Como resume Franc-Loup Malavieille: "Os melhores momentos continuam a ser aqueles que vivi na infância."


Artigo original publicado no número 419 de Christophorus, a revista para clientes da Porsche, e adaptado pela Publiracing Portugal


Fotos: Privadas, Vince Perraud


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