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Porsche cria “caixa de oito velocidades” virtual para devolver ao Taycan parte da interação perdida nos elétricos

12 de ago.
5 min de leitura
Porsche cria “caixa de oito velocidades” virtual para devolver ao Taycan parte da interação perdida nos elétricos

O E-Shift não torna o Porsche Taycan mais rápido, nem acrescenta uma verdadeira caixa de oito velocidades. A nova função utiliza software para simular mudanças de relação, quebras momentâneas na entrega de binário, rotações, som e resposta háptica, numa tentativa de recuperar parte da participação do condutor que a aceleração contínua dos automóveis elétricos acabou por eliminar.


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Uma das grandes vantagens de um automóvel elétrico é também, para alguns condutores, uma das suas limitações emocionais. O motor entrega o binário praticamente de imediato, a aceleração acontece de forma contínua e grande parte da interação associada às mudanças de velocidade desaparece. A Porsche procura contrariar essa característica no Taycan com o E-Shift, uma função baseada essencialmente em software que simula o comportamento de uma transmissão PDK de dupla embraiagem e oito velocidades.


Não estamos perante uma nova caixa de velocidades instalada no Taycan. O sistema cria sete sequências adicionais de mudança, reproduzindo digitalmente parte do comportamento de uma transmissão convencional. Há mudanças automáticas ou comandadas pelo condutor através das patilhas no volante, um conta-rotações virtual que chega às 7500 rpm, alterações momentâneas na aceleração e uma componente sonora sincronizada com aquilo que está a acontecer.


E-Shift não procura melhorar as prestações

Esta é provavelmente a distinção mais importante para compreender o E-Shift. A Porsche não desenvolveu o sistema para tornar o Taycan mais rápido. O objetivo é alterar a forma como o condutor sente e controla a aceleração.


Durante uma “mudança”, o software reduz brevemente o binário dos motores e volta a aumentá-lo imediatamente depois, criando uma interrupção deliberada que procura reproduzir a sensação de uma troca de relação. Segundo a Porsche, a aceleração global e as prestações permanecem inalteradas.

“E-Shift aporta mais emoção e mais feedback sobre o automóvel”, explica Markus Lindermeier, responsável pelo desenvolvimento da função.


Porsche cria “caixa de oito velocidades” virtual para devolver ao Taycan parte da interação perdida nos elétricos

A ideia passa por devolver ao condutor decisões que praticamente desapareceram em muitos elétricos: escolher quando mudar, selecionar uma relação e acompanhar as variações de regime, mesmo que, neste caso, grande parte desse processo exista apenas virtualmente.


Software imita uma PDK sem copiar as suas limitações

Os engenheiros da Porsche programaram nas unidades de controlo o comportamento pretendido para uma transmissão PDK, incluindo reduções durante a travagem e diferentes estratégias de funcionamento.


“Queríamos conservar a autenticidade da condução, mas sem herdar os inconvenientes de uma caixa de velocidades clássica”, afirma Lindermeier, acrescentando que as mudanças simuladas podem acontecer mais rapidamente do que num automóvel convencional com motor de combustão.


Existe, contudo, uma particularidade mecânica importante. Ao contrário da maioria dos elétricos, o Taycan já possui uma transmissão real de duas velocidades no eixo traseiro. No funcionamento do E-Shift, a passagem da segunda para a terceira relação virtual coincide com a mudança mecânica efetivamente realizada pela transmissão traseira.

É nesse momento que a simulação digital encontra um elemento físico já existente no sistema de propulsão.


Som, conta-rotações e binário criam a ilusão

Para a Porsche, apenas interromper momentaneamente a aceleração não seria suficiente para produzir uma experiência convincente. O E-Shift combina diferentes estímulos para construir a sensação de que existe efetivamente uma transmissão multivelocidades a trabalhar.


O Porsche Electric Sport Sound foi adaptado ao regime virtual do motor, à velocidade e ao estado de carga da bateria. Existe igualmente uma nova assinatura sonora no arranque, reproduzida através dos altifalantes interiores e exteriores já instalados no automóvel, com maior ênfase acústica na traseira.


No painel de instrumentos surge um conta-rotações virtual colocado ao centro, com uma escala até às 7500 rpm. As variações visuais são sincronizadas com o som e com as pequenas alterações na entrega de binário.


O resultado pretende criar uma combinação entre resposta acústica, visual e física. Tecnicamente, muitas dessas mudanças não seriam necessárias para o funcionamento eficiente da propulsão elétrica; existem precisamente para aumentar a interação entre máquina e condutor.


Porsche cria “caixa de oito velocidades” virtual para devolver ao Taycan parte da interação perdida nos elétricos

Patilhas recuperam a função de mudar de velocidade

O E-Shift é controlado através do volante desportivo GT, onde um comando permite ativar o sistema e selecionar o funcionamento automático ou manual.


No modo manual, as patilhas atrás do volante passam a comandar as oito relações virtuais. Quando o E-Shift está desligado, essas mesmas patilhas recuperam outra função e permitem selecionar dois níveis de regeneração de energia.


Há ainda uma terceira possibilidade: puxar simultaneamente as duas patilhas ativa o Push-to-Pass, disponibilizando temporariamente um aumento de potência.


A multiplicação de funções mostra como a Porsche procura manter os comandos físicos do volante como parte ativa da condução, mesmo quando aquilo que acontece na cadeia cinemática é cada vez mais determinado por software.


Uma solução artificial para recuperar sensações reais?

O E-Shift coloca também uma questão interessante sobre o futuro dos desportivos elétricos. Durante décadas, fabricantes investiram enormes recursos para tornar as caixas de velocidades mais rápidas e reduzir ao mínimo a interrupção da aceleração. A eletrificação praticamente eliminou essa interrupção — e agora o software permite introduzi-la novamente de forma deliberada.


Porsche cria “caixa de oito velocidades” virtual para devolver ao Taycan parte da interação perdida nos elétricos

Há, portanto, uma evidente componente de simulação. Mas isso não significa necessariamente que seja irrelevante para a experiência de condução. Num desportivo, a relação entre o condutor e a máquina nunca dependeu exclusivamente da solução tecnicamente mais eficiente. Som, progressividade do motor, esforço dos comandos e mudanças de velocidade também fazem parte da forma como o automóvel comunica aquilo que está a acontecer.


A Porsche parece reconhecer que aceleração instantânea e números de desempenho não são suficientes, por si só, para definir um desportivo. O E-Shift tenta acrescentar novamente ritmo e participação a uma cadeia cinemática que, pela sua própria natureza, tende a ser extremamente linear.


Mais do que uma evolução mecânica do Taycan, trata-se por isso de uma experiência sobre aquilo que o software pode fazer pela componente emocional dos futuros elétricos. A Porsche não está a utilizar o E-Shift para corrigir uma deficiência técnica da propulsão elétrica, mas para recriar deliberadamente algumas das imperfeições que ajudaram a tornar a condução desportiva interessante.


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