Porsche redesenha estratégia até 2035: menos modelos e reforço dos motores de combustão e híbridos plug-in

A Porsche apresentou a estratégia que deverá orientar a marca até 2035 e que combina uma profunda revisão da gama com uma estrutura empresarial mais pequena e uma aposta clara na rentabilidade por automóvel vendido. O plano prevê cerca de 20% menos variantes, reforço dos motores de combustão e híbridos plug-in, novos modelos nos segmentos superiores, um futuro superdesportivo de motor central acima do 911 e um ponto de equilíbrio inferior a 200 mil automóveis por ano. Pelo caminho, a empresa prepara também uma redução significativa do emprego e dos custos.
Batizada Sportwagenschmiede '35, a nova estratégia foi apresentada no Capital Markets Day realizado no centro de desenvolvimento de Weissach e deixa particularmente clara uma mudança de prioridade: a Porsche pretende depender menos do crescimento das vendas e extrair mais valor de cada automóvel.
O princípio “Value over Volume” — valor acima do volume — passa a assumir uma importância ainda maior. A empresa quer elevar o posicionamento dos modelos mais caros, aumentar a personalização e concentrar recursos nas áreas em que consegue margens superiores. No médio prazo, a Porsche aponta para uma rentabilidade operacional sobre as vendas entre 10% e 15%, chegando aos 15% como objetivo estratégico de longo prazo.
Menos versões, mas modelos mais exclusivos
Uma das decisões mais relevantes será a simplificação da gama. A Porsche pretende reduzir em cerca de 20% o número de variantes, esperando que isso permita aumentar aproximadamente 30% o volume médio vendido por cada uma das versões restantes.
Ao mesmo tempo, a participação dos modelos dos segmentos D e E deverá crescer cerca de 45% no conjunto do portefólio, concentrando maior peso comercial precisamente nas categorias superiores e, segundo a empresa, mais resistentes às oscilações do mercado.
Esta reorganização será acompanhada por uma tentativa deliberada de aumentar o preço médio. Nos modelos de topo, a Porsche pretende conseguir uma subida de aproximadamente 20% no preço médio de venda, sustentada por versões mais exclusivas e por um maior nível de personalização.
O programa Sonderwunsch terá um papel importante. A marca pretende multiplicar por seis, no médio prazo, as vendas desta área de personalização individual, enquanto Performance, Exclusiveness e Heritage passarão a estar agrupadas sob a designação “Home of Sports Cars”. A Porsche aumentará ainda a participação na Manthey Racing para 67%.
Um novo superdesportivo será colocado acima do 911
A maior novidade de produto anunciada em Weissach está, contudo, no topo da futura hierarquia da marca.
A Porsche confirmou o desenvolvimento de uma plataforma para um superdesportivo de motor central, destinada a permitir uma nova família posicionada acima do 911.
O 911 também deverá ganhar novas derivações, enquanto a Porsche admite estudar um SUV do segmento D colocado acima do Cayenne. Até 2030, a intenção é apresentar pelo menos um novo produto considerado determinante para a identidade da marca em cada ano.
É uma orientação que procura recuperar produtos de forte conteúdo emocional ao mesmo tempo que aumenta o peso das categorias mais rentáveis.
Elétricos continuam, mas combustão e PHEV recuperam espaço
A estratégia também confirma que a Porsche não pretende construir o seu futuro exclusivamente em torno do automóvel elétrico.
A empresa passa a assumir uma abordagem de três vias para as motorizações, mantendo elétricos, híbridos plug-in e motores de combustão. Estão previstos novos investimentos tanto em sistemas de combustão/PHEV como na próxima geração de baterias.
Os futuros 718 Boxster e Cayman totalmente elétricos deverão contribuir para as vendas no primeiro ano completo de produção, em 2028. No mesmo ano será apresentado um novo SUV do segmento B que, ao contrário do Macan elétrico, terá versões com motor de combustão e sistema híbrido plug-in.
A produção em série deste SUV deverá arrancar em 2028, com a Porsche a esperar um contributo mais significativo para vendas e resultados a partir de 2029. Depois chegarão outros produtos, sobretudo nos segmentos D e E.
A Porsche reforçará ainda a colaboração tecnológica com a Audi através das plataformas PPE e PPC, procurando reduzir custos de desenvolvimento e aproveitar componentes comuns, embora mantendo soluções específicas para diferenciar os automóveis das duas marcas.
Ponto de equilíbrio abaixo dos 200 mil automóveis
A mudança de produto é apenas uma parte do plano. A outra acontece dentro da própria Porsche.
A empresa quer conseguir atingir o break-even com menos de 200 mil automóveis vendidos, reduzindo assim a exposição às oscilações de procura, nomeadamente num mercado chinês para o qual está a trabalhar com previsões consideradas conservadoras.
Para chegar a esse ponto, os custos de desenvolvimento das futuras famílias de modelos deverão baixar até 20%, através de ciclos de desenvolvimento mais curtos, maior modularidade e redução da complexidade.
Os custos de pessoal na produção deverão cair até 30%, enquanto as despesas comerciais e de distribuição têm uma meta de redução de 20%. A empresa pretende ainda diminuir aproximadamente 10% o custo de materiais dos novos projetos face aos planos anteriores, aumentando a utilização de componentes comuns e as sinergias dentro do grupo.

Redução do quadro de pessoal será profunda
A reorganização terá consequências significativas no emprego.
A Porsche já acordou com os representantes dos trabalhadores um pacote que contempla a redução socialmente responsável de 9.000 postos de trabalho, acompanhada pelo compromisso de proteção do emprego do núcleo principal da força laboral até 2035.
Mas os objetivos de médio prazo vão além desse número. Os cargos de gestão deverão diminuir 40%, enquanto o quadro de pessoal em funções diretas e indiretas deverá ser reduzido em 25%, com uma meta estratégica de 30%. A empresa prevê ainda cortar cerca de 10% dos custos de pessoal através das medidas incluídas no chamado Future Package.
A concentração no negócio principal já levou igualmente à venda de participações na Rimac e Bugatti Rimac, ao acordo para alienação da consultora MHP e à decisão de encerrar atividades de desenvolvimento e produção relacionadas com Cellforce Group, Porsche eBike Performance e Cetitec.
Porsche quer ganhar mais com cada automóvel vendido
Michael Leiters, presidente do Conselho Executivo da Porsche AG, resume o objetivo da nova estratégia:
“O objetivo final é reforçar ainda mais a nossa marca única de automóveis desportivos — em todas as gamas e com novos modelos altamente desejáveis em segmentos particularmente rentáveis.”
Financeiramente, a Porsche aponta para receitas entre 41 e 45 mil milhões de euros no médio prazo, uma margem de fluxo de caixa líquido automóvel entre 9% e 12% e, no longo prazo, uma rentabilidade operacional sobre vendas de 15%.
Mais do que um simples plano de lançamentos, a Sportwagenschmiede '35 revela uma Porsche que pretende tornar-se menor em complexidade e menos dependente do volume, mas simultaneamente mais cara, personalizada e concentrada nos segmentos superiores.
É também uma correção importante na trajetória tecnológica da empresa. O elétrico continua a fazer parte do futuro da Porsche, mas deixa de ser tratado como caminho único. Combustão, PHEV e bateria passam a coexistir numa estratégia em que a rentabilidade e a procura efetiva dos clientes assumem um peso maior — enquanto um novo superdesportivo acima do 911 deverá servir como símbolo dessa próxima fase.
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