Produção automóvel em Espanha recua 1,6% até setembro

A indústria automóvel espanhola produziu 1,67 milhões de veículos nos primeiros nove meses de 2026, menos 1,6% do que no mesmo período do ano passado. Apesar da ligeira recuperação das exportações em setembro, a atividade industrial continua abaixo dos níveis anteriores à pandemia. Em contrapartida, a entrada em produção de novos modelos elétricos e híbridos plug-in está a alterar a composição das linhas de montagem: em setembro, quase um em cada cinco veículos fabricados em Espanha já era eletrificado.
A produção automóvel em Espanha registou uma descida de 0,5% em setembro de 2026, com 222.304 veículos fabricados, segundo os dados divulgados pela Associação Espanhola de Fabricantes de Automóveis e Camiões (ANFAC).
O resultado confirma a relativa estabilidade da atividade industrial nos últimos meses, embora o acumulado anual continue negativo. Entre janeiro e setembro, as fábricas espanholas produziram 1.675.092 veículos, menos 1,6% do que no período homólogo de 2025.
A ANFAC mantém a previsão de encerrar o ano com aproximadamente 2,25 milhões de veículos produzidos, o que representaria uma redução de cerca de 1% face ao exercício anterior.
O comportamento da indústria revela, contudo, diferenças importantes entre segmentos. Enquanto a produção de automóveis de passageiros diminuiu, a fabricação de veículos comerciais e industriais cresceu a dois dígitos. Simultaneamente, os modelos eletrificados ganharam relevância, acompanhando a renovação das gamas produzidas em Espanha.
Automóveis de passageiros recuam 4,3%, mas comerciais e industriais crescem 15,2%
A análise por tipologia mostra que a descida da produção não foi uniforme.
Em setembro, foram fabricados 171.918 automóveis de passageiros, menos 4,3% do que no mesmo mês de 2025. Em sentido contrário, a produção de veículos comerciais e industriais atingiu 50.386 unidades, um crescimento de 15,2%.
Esta evolução permitiu compensar parcialmente a redução registada nos automóveis de passageiros e limitar a descida global da produção a 0,5%.
Produção por tipologia | Setembro de 2026 | Variação homóloga |
Automóveis de passageiros | 171.918 | -4,3% |
Comerciais e industriais | 50.386 | +15,2% |
Total | 222.304 | -0,5% |
A diferença entre os dois segmentos evidencia a importância da diversificação industrial das fábricas espanholas, que produzem não apenas automóveis destinados ao mercado particular, mas também veículos para atividades comerciais, transporte e distribuição.
Exportações recuperam em setembro, mas continuam em queda no acumulado
A indústria automóvel espanhola mantém uma forte dependência dos mercados externos.
Em setembro, foram exportados 191.519 veículos, mais 1% do que no mesmo mês de 2025.
Este volume corresponde a aproximadamente 86,2% da produção nacional do mês, confirmando a importância das exportações para a atividade das fábricas.
No entanto, o desempenho acumulado permanece negativo.
Entre janeiro e setembro, Espanha exportou 1.427.473 veículos, uma redução de 2,3% em comparação com os primeiros nove meses do ano anterior.
A diferença entre a evolução mensal e a tendência acumulada mostra que a recuperação de setembro ainda não foi suficiente para compensar as perdas registadas ao longo do ano.
Indicador | Setembro de 2026 | Janeiro a setembro de 2026 |
Produção total | 222.304 | 1.675.092 |
Variação da produção | -0,5% | -1,6% |
Exportações | 191.519 | 1.427.473 |
Variação das exportações | +1,0% | -2,3% |
Exportações face à produção | 86,2% | 85,2% |
Europa absorve mais de 92% dos veículos exportados
Os mercados europeus continuam a concentrar a quase totalidade das exportações de veículos produzidos em Espanha. Em setembro, a Europa representou 92,1% dos envios, uma subida de 0,8 pontos percentuais relativamente ao mesmo mês de 2025.
No acumulado dos primeiros nove meses, a quota europeia situou-se nos 92,2%, menos 0,5 pontos percentuais do que no período homólogo. A Alemanha, França e Reino Unido ocuparam as três primeiras posições entre os destinos europeus em setembro, seguidos da Turquia e de Itália.
Entre os mercados com variações mais expressivas, destacaram-se a Polónia e a Áustria, com crescimentos de 33,3% e 13,7%, respetivamente. Em sentido contrário, as exportações para a Turquia diminuíram 26,2%, enquanto a Bélgica registou uma descida de 22,2%.
Estas diferenças mostram que o comportamento da procura europeia não é homogéneo e que a evolução da produção espanhola está condicionada pelas necessidades dos diferentes mercados de destino.
Para Portugal, os números têm particular relevância devido à integração das cadeias de fornecimento automóvel ibéricas e à proximidade comercial entre os dois países.
Veículos eletrificados representam 18,2% da produção de setembro
A transformação mais significativa da indústria espanhola está a ocorrer na composição tecnológica dos veículos fabricados. Em setembro, foram produzidos 40.547 veículos eletrificados, um crescimento de 47,4% face ao mesmo mês de 2025.
Este volume correspondeu a 18,2% da produção total, mais 5,9 pontos percentuais do que um ano antes. A ANFAC destaca que a maioria dos veículos eletrificados fabricados em setembro eram exclusivamente elétricos.
Os modelos 100% elétricos representaram 14,5% de todos os veículos produzidos no mês, o equivalente a aproximadamente 32.200 unidades, considerando a percentagem divulgada pela associação. Este valor é particularmente relevante porque mostra que a produção de veículos elétricos está a ganhar dimensão industrial, deixando de representar apenas uma parcela residual da atividade das fábricas, com destaque para o recente início da produção de veiculos 100% eletricos de diversas marcas do Grupo Volkswagen o que deverá elevar ainda mais esta representatividade.
Entre janeiro e setembro, foram fabricados 195.335 veículos eletrificados, mais 13,1% do que no mesmo período de 2025.
A sua quota na produção total atingiu 11,7%, uma subida de 1,5 pontos percentuais.
Produção de veículos eletrificados | Setembro de 2026 | Janeiro a setembro de 2026 |
Unidades produzidas | 40.547 | 195.335 |
Variação homóloga | +47,4% | +13,1% |
Quota na produção total | 18,2% | 11,7% |
A diferença entre a quota de setembro e a média acumulada confirma uma aceleração recente da produção eletrificada, associada, segundo a ANFAC, à entrada em produção de novos modelos.
Importa esclarecer que, nesta classificação, os veículos eletrificados incluem automóveis exclusivamente elétricos e híbridos plug-in. Os híbridos convencionais são contabilizados numa categoria mais abrangente de veículos com motorizações alternativas.
Mais de metade da produção de setembro já utiliza motorizações alternativas
Quando se consideram todas as motorizações alternativas aos sistemas exclusivamente convencionais, o peso destas tecnologias é ainda maior.
Em setembro, Espanha produziu 114.561 veículos classificados pela ANFAC como alternativos, um aumento de 30,1% relativamente ao mesmo mês de 2025. Esta categoria inclui veículos elétricos, híbridos plug-in, híbridos convencionais e modelos alimentados a gás natural ou GPL.
No conjunto, representaram 51,5% da produção automóvel espanhola durante o mês.
Foi, portanto, um mês em que mais de metade dos veículos fabricados utilizou algum tipo de motorização alternativa, embora isso não signifique que todos possam circular em modo exclusivamente elétrico.
Nos primeiros nove meses de 2026, a produção acumulada desta categoria atingiu 757.692 unidades, um crescimento de 16,6%.
A quota acumulada situou-se nos 45,2%.
Motorizações alternativas | Setembro de 2026 | Janeiro a setembro de 2026 |
Produção | 114.561 | 757.692 |
Variação homóloga | +30,1% | +16,6% |
Quota da produção total | 51,5% | 45,2% |
A distinção entre veículos alternativos e eletrificados é essencial para interpretar corretamente os dados.
Um híbrido convencional, por exemplo, pode recuperar energia durante as desacelerações e utilizar um motor elétrico para apoiar a propulsão, mas não permite carregamento externo da bateria.
Já um híbrido plug-in pode ser carregado através da rede elétrica, enquanto um veículo exclusivamente elétrico utiliza apenas energia armazenada na bateria para a propulsão.
Agrupar todas estas tecnologias sob a designação genérica de veículos elétricos conduziria, por isso, a uma interpretação incorreta da evolução industrial.
Produção continua abaixo dos níveis de 2019
Apesar do crescimento da eletrificação, a ANFAC reconhece que o volume global de produção continua distante dos níveis anteriores à pandemia.
José López-Tafall, diretor-geral da associação, considera que a indústria mantém uma evolução próxima das previsões para 2026, mas sublinha que a transformação tecnológica ainda não se traduziu numa recuperação do volume de atividade desejado pelo setor.
A previsão de aproximadamente 2,25 milhões de veículos produzidos até ao final do ano confirma uma trajetória de relativa estabilidade, sem uma recuperação expressiva da capacidade produtiva utilizada.
O desafio industrial não se resume, portanto, a substituir modelos de combustão por veículos eletrificados. Envolve também assegurar que as novas plataformas e motorizações sejam acompanhadas por volumes de produção suficientes para sustentar a atividade das fábricas, o investimento e o emprego.
A renovação das linhas de montagem pode exigir adaptações técnicas, formação de trabalhadores e reorganização das cadeias de fornecimento. Ao mesmo tempo, o aumento da produção de veículos elétricos depende da capacidade de absorção dos mercados europeus, que continuam a apresentar ritmos diferentes de adoção desta tecnologia.
ANFAC pede estabilidade nos incentivos e nas políticas industriais
Perante este cenário, a associação espanhola defende maior previsibilidade nas políticas públicas de apoio ao setor automóvel. Entre as prioridades identificadas estão a continuidade dos incentivos à aquisição de veículos eletrificados e a implementação de medidas de competitividade industrial previstas no Plano España Auto.
A ANFAC considera necessário alinhar a transformação das fábricas com a evolução efetiva da procura, evitando desequilíbrios entre a capacidade de produção e o ritmo de renovação do parque automóvel. A associação destaca igualmente a importância de garantir condições que favoreçam novos investimentos e a manutenção do emprego industrial.
Estas posições refletem as preocupações dos fabricantes, mas não permitem concluir, por si só, que uma determinada política de incentivos seja suficiente para recuperar os volumes de produção. A competitividade das fábricas depende também de fatores como custos energéticos, produtividade, logística, disponibilidade de componentes e decisões de investimento dos grupos automóveis.
Para a indústria espanhola, o desafio dos próximos anos será transformar o crescimento da produção eletrificada numa recuperação sustentada do volume total de veículos fabricados. Os dados de setembro mostram avanços na mudança tecnológica, mas também confirmam que essa transformação, por enquanto, ainda não compensou integralmente a perda de produção.
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