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Rally de Portugal fica fora do WRC em 2027 e interrompe presença consecutiva iniciada em 2009

há 2 horas
6 min de leitura

Rally de Portugal fica fora do WRC em 2027 e interrompe presença consecutiva iniciada em 2009

O Rally de Portugal não deverá integrar o calendário do Campeonato do Mundo de Ralis em 2027, numa decisão particularmente inesperada depois de, em maio de 2025, o Automóvel Club de Portugal ter anunciado um acordo com o promotor do WRC que previa a permanência da prova até 2028. À espera da publicação definitiva do calendário e de esclarecimentos detalhados sobre o que levou à alteração, a ausência portuguesa surge num momento de profunda transformação do Mundial, que no próximo ano estreia novos regulamentos e procura alargar a presença a outros mercados.


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A notícia conhecida esta terça-feira, 29 de setembro, representa uma mudança significativa face ao cenário que estava oficialmente estabelecido. Em maio de 2025, o próprio Automóvel Club de Portugal (ACP) anunciou que tinha chegado a acordo com o WRC Promoter para manter o Rally de Portugal no Mundial durante as temporadas de 2026, 2027 e 2028. Carlos Barbosa, presidente do ACP, chegou então a destacar a confiança do promotor na organização portuguesa.


A ausência em 2027 significa, portanto, mais do que a simples não renovação de um contrato que chegava ao fim: representa uma alteração ao compromisso anteriormente anunciado. Até ao momento, não existe uma explicação oficial detalhada da FIA ou do ACP que estabeleça as razões concretas para Portugal sair do calendário, pelo que é importante separar aquilo que está confirmado das hipóteses que começam a rodear a decisão.


Um WRC em transformação e novos países à procura de espaço

O contexto ajuda, contudo, a perceber algumas das pressões existentes sobre o calendário. O WRC entra em 2027 numa nova era regulamentar, com a FIA a procurar automóveis mais acessíveis e uma estrutura capaz de atrair novos construtores e equipas. Paralelamente, o campeonato tem vindo a manifestar uma estratégia de expansão geográfica para novos mercados.


Um dos movimentos já oficialmente anunciados é o regresso do Reino Unido. A FIA confirmou em março que está prevista para 2027 a entrada do Rally Scotland, prova de terra com base em Aberdeen e classificativas em Aberdeenshire e Moray. Existe um acordo inicial de três anos, apoiado pelo Governo escocês e por autoridades locais, embora a integração definitiva esteja dependente do processo de avaliação e aprovação do calendário pelo Conselho Mundial do Desporto Automóvel da FIA.


No próprio anúncio da Escócia, a FIA enquadrou o movimento numa estratégia mais ampla de expansão do campeonato, mencionando explicitamente novos mercados nos Estados Unidos, América do Sul, Europa e Médio Oriente. Isso aumenta a pressão sobre um calendário que não pode crescer indefinidamente e obriga a escolher entre provas históricas e novos destinos.


É neste contexto que têm de ser interpretadas, com prudência, as razões apontadas para a saída portuguesa. Rotação de provas europeias, procura de novos mercados, condições comerciais negociadas com os organizadores e equilíbrio geográfico do campeonato são explicações plausíveis no atual modelo do WRC, mas não devem ainda ser apresentadas como causa oficial da ausência do Rally de Portugal sem confirmação da FIA, do promotor ou do ACP.


Há, aliás, um elemento que torna a decisão ainda mais difícil de explicar apenas pela qualidade organizativa da prova. Quando o acordo até 2028 foi anunciado, Simon Larkin, diretor de eventos do WRC Promoter, classificou Portugal como um evento estratégico para o campeonato e destacou o público e a organização.


Uma ausência que contraria o acordo anunciado até 2028

Este será um dos pontos que necessitará de esclarecimento por parte do ACP. O comunicado publicado em 22 de maio de 2025 era inequívoco ao indicar que o acordo com o promotor garantia edições do Mundial em 2026, 2027 e 2028.


Mais ainda: poucos dias depois da edição de 2025, a própria organização escrevia que o Rally de Portugal estava “garantido no WRC até 2028”.


A saída em 2027 levanta, por isso, várias questões: se houve uma renegociação do acordo, se Portugal entra num eventual sistema de rotação, se os problemas de segurança na edição deste ano foram preponderantes para esta decisão e se a ausência ficará limitada a uma temporada ou se o compromisso originalmente previsto para 2028 também será afetado.


Neste momento, não existe base oficial suficiente para responder definitivamente a essas questões.


2026 poderá fechar um ciclo iniciado em 2009

A dimensão histórica da decisão percebe-se melhor olhando para a continuidade recente da prova. O Rally de Portugal nasceu em 1967 e fez parte da temporada inaugural do Campeonato do Mundo, em 1973. Ao longo da sua história foi distinguido cinco vezes como melhor rali do mundo e tornou classificativas como Arganil, Fafe e, noutras épocas, Sintra, referências internacionais da modalidade.


Portugal já conhece, porém, o que significa perder o Mundial. Depois de décadas no calendário, a prova ficou afastada do WRC entre 2002 e 2006. O ACP iniciou então um processo destinado a recuperar o estatuto mundialista, realizando provas de candidatura em 2005 e 2006. O regresso aconteceu em 2007, com o Rally de Portugal instalado no Algarve.


Depois de nova ausência em 2008, a prova regressou em 2009 e, desde então, manteve uma presença contínua no Campeonato do Mundo.


O Algarve foi o centro da prova entre 2007 e 2014. Mais tarde, o Rally regressou ao Norte, recuperando classificativas intimamente ligadas à sua história e consolidando Matosinhos e a Exponor como base operacional, ao mesmo tempo que voltou a incorporar o Centro do país no percurso.


A edição de 2026, a 59.ª, realizou-se entre 7 e 10 de maio, envolvendo 17 municípios das regiões Norte e Centro. Thierry Neuville e Martijn Wydaeghe venceram com o Hyundai i20 N Rally1, à frente de Oliver Solberg e Elfyn Evans.


Caso a ausência em 2027 se confirme no calendário definitivo, essa edição ficará também marcada como a última antes de uma interrupção de uma sequência mundialista que começou em 2009.


Um evento com peso muito para além dos troços

A importância da prova não se mede apenas pela tradição desportiva. Quando anunciou a extensão do contrato, o ACP indicou que a edição de 2024 tinha gerado um impacto superior a 186 milhões de euros na economia portuguesa, cerca de metade através de despesa direta em restauração e hotelaria nas regiões atravessadas.


A dimensão territorial tornou-se igualmente parte do modelo do Rally de Portugal. Em 2026, a organização envolveu municípios como Águeda, Albergaria-a-Velha, Amarante, Arganil, Cabeceiras de Basto, Coimbra, Fafe, Felgueiras, Figueira da Foz, Góis, Lousã, Lousada, Matosinhos, Mortágua, Paredes, Sever do Vouga e Vieira do Minho, com apoio de entidades de turismo e diferentes parceiros privados.


A saída do Mundial tem, portanto, implicações potenciais para autarquias, turismo, patrocinadores e toda a estrutura económica associada à realização da prova.


A grande questão passa agora por 2028

A história aconselha também alguma prudência perante a ideia de uma saída definitiva. Portugal já perdeu o WRC e conseguiu recuperá-lo, e a reputação internacional da prova não desaparece com uma temporada fora do campeonato.


O que torna a situação de 2027 particularmente relevante é precisamente o facto de existir um acordo anteriormente anunciado até 2028. Se estivermos perante uma rotação de calendário, a prova poderá regressar no ano seguinte; se o acordo tiver sido revisto de forma mais profunda, o cenário será diferente.


Há ainda um contraste curioso no automobilismo português: embora o Rally de Portugal possa deixar o WRC em 2027, Portugal continuará no calendário mundial da FIA no todo-o-terreno. O bp Ultimate Rally-Raid Portugal está oficialmente confirmado no Mundial de Rally-Raid de 2027, entre 21 e 26 de setembro, pelo quarto ano consecutivo.


Para o Rally de Portugal, porém, o essencial passa agora pelos esclarecimentos do ACP, FIA e WRC Promoter. Depois de uma ligação anunciada como garantida até 2028, é necessário perceber por que razão 2027 desapareceu dos planos, se existe compensação contratual ou rotação acordada e, sobretudo, se esta ausência representa apenas uma pausa ou o início de um novo período fora do Campeonato do Mundo.


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