
Artur Semedo - artur.semedo@publiracing.pt
1 de out.



Artur Semedo - artur.semedo@publiracing.pt
15 de set.













Quem, como eu, faz com frequência o eixo Lisboa–Alentejo sabe bem o que é olhar para a A2 ou para a A6, e pensar duas vezes antes de entrar na via rápida. Durante anos, décadas mesmo, as portagens funcionaram como um muro invisível entre o interior e o litoral: a estrada existia, mas o preço afastava muitos residentes, trabalhadores e pequenas empresas.
Com o Orçamento do Estado para 2026, esse cenário começa finalmente a mudar — pelo menos em parte. O Parlamento aprovou isenções de portagens em troços da A6 e da A2 no Alentejo para residentes e empresas locais, e a A25 passa a ser totalmente gratuita para todos os utilizadores já em 2026.
No caso que mais nos interessa aqui, o do Alentejo:
Na A6, a isenção aplica-se ao troço entre o nó A2/A6/A13 e Caia, ligando o interior alentejano à fronteira de Elvas/Caia e a Badajoz.
Na A2, abrange o troço entre o nó A2/A6/A13 e Almodôvar, cobrindo a travessia alentejana da autoestrada que liga Lisboa ao sul.
As isenções são exclusivas para residentes e empresas com sede nas áreas de influência destes troços, e o acesso ao benefício dependerá de um dispositivo eletrónico associado à matrícula (tipo Via Verde) a aplicar nos primeiros meses de 2026 após regulamentação.
Ou seja: não é o “fim das portagens” em todo o país — é um ajuste cirúrgico em zonas onde a autoestrada é, muitas vezes, a única ligação rápida e segura, mas se tornou proibitiva para quem lá vive.
Do ponto de vista de quem reside no Alentejo, esta isenção é, antes de mais, justiça básica. Estamos a falar de:
Trabalhadores que fazem diariamente o vaivém entre vilas e cidades,
Estudantes que se deslocam para polos universitários,
Gente que precisa de ir com regularidade a Lisboa (ou a Badajoz) para serviços de saúde, negócios ou administração pública.
Para todos eles, a portagem era uma despesa fixa pesada — e muitas vezes impeditiva. Não é por acaso que autarcas e empresários de Évora e da região vieram a público dizer que a medida “vem corrigir uma injustiça” e que pode reforçar a coesão territorial.
Do lado da logística e do transporte, o impacto também é relevante:
Empresas sediadas no Alto Alentejo, Alentejo Central, Baixo Alentejo ou Alentejo Litoral passam a ter melhor acesso rodoviário a Lisboa, Sines e Espanha, com menor custo de portagens nos seus percursos regulares.
Isto reforça o papel do Alentejo como corredor estratégico entre o litoral (Lisboa, Sines) e a fronteira, num país que precisa desesperadamente de dar mais uso económico ao interior.
Se juntarmos esta medida às decisões anteriores de eliminar portagens em várias ex-SCUT do interior e Algarve (Lei n.º 37/2024), temos um padrão claro: Portugal está, finalmente, a reconhecer que o modelo “paga quem passa” em zonas sem alternativas razoáveis foi um erro que penalizou durante anos quem vive fora dos grandes centros.

Convém lembrar que estas isenções não vieram de iniciativa do Governo, mas sim de emendas parlamentares lideradas pelo PS e apoiadas por outros partidos, contra a posição do executivo da AD. O primeiro-ministro Luís Montenegro já classificou este processo como uma espécie de “subasta anual” em que o Parlamento aprova isenções aqui e ali, fazendo recair a fatura sobre todos os contribuintes.
Percebo o argumento:
É verdade que portagens são receita,
É verdade que qualquer isenção tem custo para o erário público,
E é verdade que as decisões deviam ser integradas numa estratégia global de mobilidade e sustentabilidade, e não em “leilões de última hora” em cada Orçamento.
Mas como alguém que observa há anos o abandono relativo do interior, também vejo o outro lado:
Sem estas isenções, muitas destas autoestradas permanecem sub-utilizadas pelos residentes, usadas sobretudo por quem passa “de fora para fora”. A A6, a que melhor posso falar, tem 3 décadas de baixa utilização precisamente pelo preço totalmente desproporcional, onde, em muitos dos atuais carros que testamos, gastamos tanto de portagem como de combustível ou eletricidade e lembrando que ao chegar em Lisboa, tem mais portagem obrigatória, seja pela Ponte 25 de Abril, ou se a escolha for a Ponte Vasco da Gama.
A coesão territorial, tantas vezes um slogan, precisa de medidas concretas que tornem o interior mais próximo, mais ligado e mais competitivo.
O que me preocupa é outra coisa: falta uma narrativa clara. O país precisa de saber, de forma transparente:
Qual é o plano para as portagens a 5–10 anos?
Que critérios definem onde se paga e onde se deixa de pagar?
Como se compensa a perda de receita (orçamento, fundos europeus, reformulação de concessões)?
Enquanto esta discussão não for feita de frente, com números e cenários, vamos continuar neste ciclo de remendos anuais.
Do ponto de vista de quem vive, trabalha ou investe no Alentejo, esta medida tem um valor que vai para além das contas da Via Verde. Ao tornar mais barato circular nos troços alentejanos da A2 e da A6, estamos a encolher mentalmente a distância até Lisboa — não apenas em minutos, mas em euros. E isso muda decisões:
de onde morar,
onde abrir uma empresa,
para onde expandir uma operação logística.
Lembro-me bem do salto que foi, há anos, quando deixámos de ter estradas nacionais intermináveis e passámos a ter autoestradas. Agora, o passo é outro: tornar essas autoestradas verdadeiramente utilizáveis por quem lá vive, não apenas por quem atravessa a região a caminho de outro lugar.
Se, como país, queremos um interior vivo, produtivo e ligado, estas decisões não podem ser vistas apenas como “despesas orçamentais”. São investimentos em mobilidade, competitividade e justiça territorial.
O fim das portagens em troços da A2 e da A6 para residentes e empresas do Alentejo, no quadro do OE 2026, é uma daquelas medidas em que eu utilizaria o ditado popular que diz "mais vale tarde do que nunca". Corrige parte de uma injustiça antiga e alinha-se com um movimento mais amplo de aliviar o custo de circular no interior.
Mas não podemos deixar que isto fique por aqui:
É preciso regulamentar rápido e bem, para que o benefício seja simples de usar e não um labirinto burocrático.
É preciso monitorizar o impacto na economia local e no tráfego.
E é preciso, sobretudo, dizer ao país qual é a visão de longo prazo para as portagens.
Porque não chega ter autoestradas no mapa. É preciso que quem vive no interior sinta que elas são, de facto, suas — e não apenas uma linha cara a atravessar quando não há alternativa.
Artur Semedo, Editor PUBLIRACING
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