
Artur Semedo - artur.semedo@publiracing.pt
há 7 horas



Artur Semedo - artur.semedo@publiracing.pt
17 de jan.



Artur Semedo - artur.semedo@publiracing.pt
31 de dez. de 2025



















Lembro-me perfeitamente de, há pouco mais de uma década, observar sites de venda de carros novos e encontrar uma secção que hoje parece ficção científica: "Carros novos até 10.000€". Naquela altura, o segmento A era o herói das cidades. Tínhamos opções, tínhamos concorrência e, acima de tudo, tínhamos preços que um jovem em início de carreira ou uma família de classe média podiam suportar sem hipotecar o resto da década.
Hoje, ao olhar para o mercado português em 2026, sinto que o "carro barato" morreu e ninguém foi ao funeral.
Se olharmos para os resistentes do segmento A, como o Fiat 500, Kia Picanto, Hyundai i10, Toyota Aygo, ou ainda, fazendo a ponte para o segmento B, o Dacia Sandero, os preços já superam perigosamente os 18.000€ chegando a superar os 22.000€ no caso do Toyota. Só mesmo a Dacia consegue entregar uma proposta com uma relação de preço/qualidade mais próxima do antigo conceito de “Carro Barato” sendo encontrado a partir de 14.000€.
Se subirmos para o segmento B (os utilitários Hatch), o cenário é ainda mais desolador. Um Renault Clio, Peugeot 208 ou Opel Corsa, verdadeiros campeões de vendas ao longo das últimas décadas, e que muitos de nós podíamos comprar novos por cerca de 10 mil euros há uns anos, raramente saem do stand por menos de 19.000€ ou 20.000€, isto nas suas versões de entrada, e superando os 30.000€ nas versões mais completas e eletrificadas.
A pergunta que faço é: o que mudou? A resposta curta é "tudo". As normas de segurança Euro NCAP exigem cada vez mais tecnologia de série e as metas de emissões da UE (como a atualizada Euro 6e-bis) obrigam a sistemas de filtragem e hibridização que encarecem a produção e, obviamente, o produto. O resultado? As marcas preferem deixar de fabricar carros pequenos e baratos porque a margem de lucro é mínima. É mais rentável vender um SUV elétrico de 40 mil euros do que três utilitários de 15 mil.
E se pensam que o mercado de usados é o refúgio, desenganem-se. Tenho acompanhado o mercado e o que vejo assusta-me. Carros com 8 ou 10 anos estão a ser vendidos por valores que, apenas 5 ou 6 anos atrás, seriam considerados absurdos. Estamos a ver utilitários usados com 100.000 km a serem listados por 12.000€. O usado tornou-se raro porque as pessoas adiam a troca para carro novo, e quem tem um usado fiável, agarra-se a ele como se fosse ouro.
O fenómeno é global, mas em países como a França ou a Alemanha, embora os preços também tenham subido de forma semelhante, os programas de incentivo ao abate e os salários médios mais altos ajudam a absorver parte desse choque. Em Espanha, o mercado de usados ainda respira com um volume maior, mantendo os preços ligeiramente mais competitivos. Por cá, com o nosso poder de compra estagnado e uma fiscalidade sobre o automóvel que castiga quem não tem posses para o elétrico de última geração, o cidadão comum está a ser empurrado para o transporte público... que muitas vezes nem sequer chega à sua porta.
Neste momento muitos se perguntam – mas o mercado nacional de veículos vem recuperando e crescendo, então, como é possível este cenário? - a resposta é que, em 2025, o mercado português consolidou-se como um dos mais dependentes do canal corporativo na Europa. Vendas para Empresas/Frotas representam aproximadamente 75% a 80% do mercado total de ligeiros de passageiros. Com isso vendas para particulares são apenas cerca de 20% a 25% dos números totais.

A Razão: A fiscalidade portuguesa (dedução do IVA e Isenção de Tributação Autónoma para elétricos) torna quase "obrigatório" que um carro de gama média/alta seja comprado via empresa. O cliente particular, sem estes benefícios, está a ser empurrado para o mercado de usados.
Na União Europeia, a média de vendas para frotas (True Fleets + Rent-a-Car) anda em torno dos 60%, mas com variações regionais:
A Alemanha tem um cenário muito semelhante a Portugal, com as frotas a dominarem cerca de 70% das novas matrículas. Já na França existe um equilíbrio maior, com cerca de 55% frotas e 45% particulares, devido a fortes incentivos diretos ao abate para pessoas singulares. Em Espanha as frotas e o Rent-a-Car (muito forte devido ao turismo) representam cerca de 65% do mercado total.
Por último, outro mercado que acompanhamos de perto, o Brasil, a ascensão das chamadas Vendas Diretas, fenómeno que engloba frotistas, produtores rurais e PCD, explodiu nos últimos anos e atualmente representa cerca de 52% a 55% do volume total de um mercado que supera os 2 milhões de unidades.
Para finalizar, a minha opinião é clara: estamos a criar um fosso social sobre rodas. O automóvel sempre foi um símbolo de liberdade e autonomia. Ao torná-lo um produto de luxo, estamos a retirar essa liberdade a uma geração inteira.
No Publiracing, somos apaixonados por veículos, e pelo universo do transporte e da mobilidade de uma forma geral, mas não podemos ignorar que a base da pirâmide está a ruir. Se o "carro do povo" desaparecer, o que restará da nossa cultura automóvel? Restará apenas o olhar de desejo sobre vitrinas de stands que a grande maioria já não consegue atravessar.
Artur Semedo / Editor PUBLIRACING
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