Artur Semedo - artur.semedo@publiracing.pt
há 8 minutos









Há um detalhe técnico que separa muitos elétricos “bons” de elétricos verdadeiramente eficientes no dia a dia: a forma como gerem a temperatura.
A bomba de calor entrou no vocabulário do mercado como promessa de “mais autonomia no inverno”, mas a sua utilidade vai além do frio — e ajuda a explicar por que razão alguns modelos mantêm melhor a eficiência em diferentes climas, enquanto outros penalizam mais sempre que se liga o AVAC (aquecimento, ventilação e ar condicionado).
A questão não é apenas conforto. Em veículos elétricos, aquecer ou arrefecer o habitáculo afeta a bateria que consome energia que vem diretamente da bateria de tração, afetando a autonomia real. Há estudos que mostram que a climatização pode ter impacto muito relevante na autonomia (em cenários extremos) e, por isso, estratégias de gestão térmica — onde a bomba de calor é peça central — tornam-se um “multiplicador” de eficiência.
De forma simples: é um sistema de climatização que “move” calor em vez de o criar.
Num sistema convencional com resistência elétrica (PTC), o carro gera calor como um aquecedor doméstico: é simples, mas energeticamente influente na real autonomia de um modelo.
Numa bomba de calor, o sistema funciona como um “ar condicionado ao contrário”: retira calor de um lado e entrega-o no outro, usando um circuito frigorífico com compressor, válvulas e permutadores térmicos.
Na prática, isto permite obter mais calor “útil” por cada unidade de energia elétrica consumida — o motivo pelo qual a bomba de calor é associada a ganhos de eficiência, sobretudo quando é necessário aquecer o habitáculo.

A bomba de calor pode servir duas grandes frentes (dependendo do desenho do fabricante):
Climatização do habitáculo (conforto e segurança): Mantém a cabine numa temperatura definida, com menor consumo do que uma resistência elétrica em muitas condições. Isso reduz a “fatia” de energia que o AVAC rouba à bateria, ajudando a preservar autonomia.
Gestão térmica do conjunto motriz e, em alguns casos, da bateria: A temperatura da bateria influencia diretamente o desempenho (potência disponível), a velocidade de carregamento e ainda a eficiência/vida útil da bateria.
Há fabricantes e fornecedores que descrevem a gestão térmica como um sistema integrado, com circuitos de arrefecimento e aquecimento a trabalhar para manter eletrónica de potência, motor e bateria dentro de janelas ideais de funcionamento.
Os ganhos não são “mágicos”, mas são mensuráveis — sobretudo em frio, quando o aquecimento do habitáculo tende a penalizar mais.
Um relatório do NREL (laboratório nacional dos EUA) refere resultados de investigação em que EVs com bomba de calor apresentam autonomia 15% a 22,6% superior em ambientes de -10 °C, quando comparados com aquecimento por resistência.
Um relatório do U.S. Department of Energy indica que, em testes, a bomba de calor pode reduzir a potência total do AVAC (influenciando o consumo) em 38% a cerca de -6,7 °C, mitigando a perda de autonomia em tempo frio.
Ou seja: não é marketing — há base técnica para a melhoria, embora o ganho real dependa do modelo, do software, da forma como o carro aquece a bateria e do perfil de utilização (cidade/autoestrada, pré-condicionamento, etc.).

Porque há custos, compromissos de engenharia e casos de uso em que a relação custo/benefício não é óbvia:
Custo e complexidade: bomba de calor exige componentes adicionais e integração mais sofisticada (circuitos, válvulas, controlo).
Espaço e arquitetura: alguns projetos (sobretudo de entrada de gama) simplificam a gestão térmica para reduzir custos e peso.
Estratégia comercial: em vários modelos, a bomba de calor aparece como opção ou integrada em pacotes. Exemplo claro: a Volkswagen apresenta a bomba de calor como solução orientada a aumentar eficiência de aquecimento e autonomia (e, em certos casos, como opcional).
Eficiência variável com a temperatura: em frio extremo, a bomba de calor perde rendimento e pode precisar de apoio de resistência elétrica, reduzindo parte da vantagem.

A perceção “bomba de calor = inverno” existe por um motivo: aquecer consome mais energia do que arrefecer em muitos EVs, e é no frio que o ganho costuma ser mais notório.
Mas há dois pontos importantes para climas amenos e quentes:
O AVAC também penaliza autonomia no calor: O Automóvel Club de Portugal cita uma análise em que, a cerca de 35 °C com AVAC ligado, a autonomia média diminuiu cerca de 17% resultado muito próximo do teste que realizamos internamente na PUBLIRACING no verão que no habitual percurso de 200 km entre Lisboa e a nossa Redação, em condições climatéricas e de condução/percurso semelhantes, com e sem AVAC ligado, obtivemos uma diferença de cerca de 15% na autonomia, o que mostra que gestão térmica eficiente importa também no verão.
A bomba de calor pode contribuir para eficiência global, não apenas para aquecer: Em alguns sistemas, a arquitetura permite recuperar e redistribuir calor entre componentes (motor/eletrónica/bateria/habitáculo), otimizando o balanço térmico do veículo. O benefício concreto depende do desenho de cada marca, mas o racional técnico é consistente: reduzir desperdícios e reduzir energia elétrica dedicada ao controlo térmico.

Conclusão prática: não, não é “só para países frios”. Em climas tropicais, o valor pode surgir mais pela gestão térmica inteligente e pela eficiência do sistema de climatização em uso real (sobretudo para quem anda muito em cidade, com muitas paragens, ou usa bastante o ar condicionado).
Pré-condicionamento ligado à tomada: aquecer/arrefecer o habitáculo e, quando aplicável, preparar a bateria antes de sair reduz consumo durante a condução e melhora eficiência.
Percursos urbanos curtos e repetidos: é onde o “custo” do conforto tende a pesar mais na média (o carro passa muito tempo a climatizar por quilómetro percorrido).
Uso em autoestrada no frio: aquecimento contínuo + velocidades altas tornam cada kWh relevante.
A bomba de calor não é um “extra de luxo”: é, cada vez mais, uma peça de eficiência. Ajuda a reduzir o impacto do conforto térmico na autonomia — sobretudo no frio, mas com relevância crescente em qualquer cenário onde o AVAC trabalhe muito. E, num mercado em que a autonomia real e a consistência de carregamento pesam tanto quanto a potência, a gestão térmica passou a ser um dos temas mais determinantes na experiência com um veículo elétrico.
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