
Artur Semedo - artur.semedo@publiracing.pt
17 de jan.



Artur Semedo - artur.semedo@publiracing.pt
31 de dez. de 2025



Redação Europa
12 de dez. de 2025



















Tenho recebido, nos últimos dias, a mesma pergunta em algumas mensagens: “Afinal, o que é que mudou na carta de condução na Europa? Isto vai mexer comigo?”
A resposta curta é: sim, vai mexer consigo – e não é pouco. A União Europeia acaba de aprovar e pôr em vigor um pacote que muda profundamente a forma como tiramos, usamos e perdemos a carta. A chamada quarta Diretiva da Carta de Condução entrou em vigor a 25 de novembro de 2025 e passa a ser a base comum para todos os Estados-membros, Portugal incluído.
Quis, por isso, sentar-me e juntar tudo: o que está realmente escrito, o que significa para nós, condutores portugueses, e o que eu próprio penso deste “reset” europeu à forma como olhamos para o volante.
Em vez de juridiquês, vou à lista das mudanças que mais importam a quem conduz todos os dias.
A carta de condução passa a existir em formato digital válido em toda a UE, acessível no telemóvel ou noutro dispositivo. A versão física continua a existir, mas por pedido do condutor – o digital será a regra, o cartão de plástico a exceção.
Para quem viaja, trabalha noutros países ou lida com autoridades diferentes, isto simplifica. Para quem não tem smartphone ou não quer depender dele, a lei garante: pode continuar a ter carta em cartão.
As novas regras permitem que jovens de 17 anos comecem a conduzir veículos ligeiros (categoria B) ao lado de um condutor experiente. É o chamado accompanied driving: aos 17 conduz com supervisão, aos 18 pode passar a conduzir sozinho.
A ideia é simples: não atirar um jovem para a estrada “a frio” aos 18. Primeiro ganha horas reais de volante com alguém ao lado, depois assume sozinho. Em países onde isto já existe, os dados mostram melhorias na segurança.
A diretiva define um período probatório de pelo menos dois anos para quem tira carta pela primeira vez. Durante este tempo, os condutores podem estar sujeitos a regras mais apertadas e sanções mais duras por infrações graves – álcool, velocidade, telemóvel, etc.
É um reconhecimento duro da realidade: os jovens são minoria no total de condutores, mas estão envolvidos numa fatia desproporcionada dos acidentes mortais.
Outra mudança importante é a ideia de que a carta não é um “direito vitalício” automático. Os Estados passam a ter de fazer verificações mais sistemáticas da aptidão física e mental para conduzir ao longo da vida do condutor. No mínimo, será exigido um autoquestionário sempre que a carta é emitida ou renovada; alguns países podem ir mais longe com exames médicos ou avaliações específicas.
Num contexto de envelhecimento da população e de mais quilómetros feitos todos os anos, esta discussão já vinha a caminho há muito.
Talvez a mudança que mais conversa vai gerar em Portugal: acaba a ideia de que “o que acontece em Espanha fica em Espanha”.
Com as novas regras, infrações graves cometidas noutro país da UE – como álcool ao volante, excesso de velocidade grave ou uso de telemóvel – podem levar a sanções efetivas no seu país de residência, incluindo suspensão ou cassação da carta.
Em resumo: se fizer asneira séria em França, Espanha ou Alemanha, deixa de poder “fugir” para Portugal como se nada fosse.
Para responder à falta de motoristas, especialmente de pesados, as novas regras abrem a porta a que:
aos 18 anos se possa conduzir camiões (categoria C),
aos 21 se possa conduzir autocarros (categoria D),
desde que o condutor tenha o Certificado de Aptidão Profissional (CPC) e formação específica.
Aqui, a UE tenta equilibrar duas urgências: segurança rodoviária e falta de mão de obra no transporte de mercadorias e passageiros.
A justificação oficial é clara: 19 940 mortes nas estradas da UE em 2024. A meta europeia é reduzir para metade as mortes e feridos graves até 2030 e caminhar para “zero vítimas” em 2050.
Para lá chegar, Bruxelas decidiu atacar três frentes:
comportamento dos condutores (especialmente os mais jovens e reincidentes),
modernização dos documentos (digitalização, controlo, uniformidade),
fim da impunidade transfronteiriça (não há “refúgio” legal além-fronteiras).
No papel, faz sentido: em espaço Schengen, onde atravessamos fronteiras como quem muda de distrito, ter 27 regimes de carta de condução pouco compatíveis é meia receita para o caos.
Em primeiro lugar, vejo vantagens claras:
A carta digital simplifica a vida de quem se mexe entre países, desde que nunca esqueçamos quem não tem smartphone, e isso foi salvaguardado.
O acompanhamento aos 17 anos parece-me uma boa ideia, se for bem enquadrado: melhor criar condutores com horas reais de estrada do que “heróis do exame”. A consciência e a educação na estrada é muito mais importante do que o documento Carta de Condução.
O período probatório faz sentido num continente onde os números mostram, ano após ano, o risco desproporcionado dos condutores mais jovens.
A coerência das sanções entre países era uma urgência: ver alguém fazer disparates em Espanha e depois conduzir em Portugal como se nada fosse sempre me pareceu absurdo.

Mas também tenho dúvidas e receios.
Um deles é a digitalização sem rede. Tornar a carta digital o formato principal é moderno, sim, mas não podemos empurrar para a margem quem não domina tecnologia. Portugal tem zonas com rede fraca, muitas pessoas idosas, condutores que não vivem ( e não querem) com o telemóvel na mão. A diretiva salvaguarda o direito a pedir carta física – e é bom que esta opção não se transforme, na prática, num labirinto burocrático.
Outra preocupação é a descida de idades em veículos pesados. Percebo a lógica económica, mas pergunto-me se todos os Estados vão garantir formação e fiscalização à altura para pôr um jovem de 18 anos ao volante de um camião de 40 toneladas. A linha entre “responder à falta de motoristas” e “baixar a fasquia da exigência” é tênue.
E depois há o risco de mais regras, mesma cultura. Podemos ter cartas digitais, probatórios, cruzamento europeu de sanções… mas se continuarmos a fechar os olhos ao excesso de velocidade crónico, ao telemóvel no volante como se fosse prolongamento da mão, e à falta de fiscalização onde ela mais faz falta, o impacto será sempre limitado.
Em teoria, esta reforma aproxima-nos de uma verdadeira carta de condução europeia única:
formato digital comum,
regras mínimas comuns para jovens condutores,
sanções que “viajam” com o condutor,
prazos de validade harmonizados.
Na prática, cada Estado-membro tem até quatro anos para transpor as regras para a sua legislação e alguma margem para escolher como aplica certos pontos.
Ou seja, vamos continuar a ter diferenças – mas dentro de uma moldura comum:
Portugal pode ser mais rígido na idade de acesso a certas categorias,
outro país pode ser mais exigente nos exames médicos,
outro mais duro no álcool para condutores profissionais.
Mesmo assim, o salto é grande: a base passa a ser a mesma, e isso, para quem conduz atravessando fronteiras, é uma mudança estrutural.
Se é condutor em Portugal, deixo-lhe três ideias claras:
Vai poder ter carta no telemóvel, mas não é obrigado a abdicar do cartão físico.
Se cometer uma infração grave noutro país da UE, não espere que fique “lá”: as consequências podem muito bem segui-lo até casa.
Se tem filhos ou netos a chegar à idade de conduzir, prepare-se para um modelo em que podem começar aos 17, mas com muito mais acompanhamento e escrutínio nos primeiros anos.
Como cidadão, gosto de ver a Europa finalmente a agir de forma coordenada num tema onde a realidade já era, há muito, transfronteiriça. Como condutor, sei que nenhuma diretiva substitui aquilo que fazemos quando pegamos no carro: respeitar limites, largar o telemóvel, não misturar álcool com volante. E como jornalista especializado em automóvel e mobilidade, espero que este pacote não seja apenas mais um PDF em Bruxelas, mas um ponto de partida para discutirmos a sério a nossa cultura de condução em Portugal.
Porque, no fim, não é a carta que mata. Somos nós – ou nós a decidir fazer diferente.
👉 “A Revista Publiracing acredita em jornalismo isento, relevante e de qualidade. Se também valoriza informação independente, considere apoiar o nosso trabalho.”
Saiba mais clicando aqui ou vá para o link de apoio abaixo































Comentários